Opinião

Eles passarão; nós, passarinhos

Ao contrário dos que tentam nos recolonizar, lutamos com as armas da educação, do respeito ao outro e, sobretudo, do respeito ao estrangeiro

Eles passarão; nós, passarinhos
Eles passarão; nós, passarinhos
Manifestação em apoio ao presidente venezuelano Nicolás Maduro na embaixada da Venezuela no Brasília em 3 de janeiro. Foto: Sérgio Lima/AFP
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“A palavra grega para paciência é hypomoné e significa permanecer debaixo de algo, perseverar com bravura.”
Anselm Grün

É isso que nós, latino-americanos e caribenhos, devemos fazer diante da agressão da extrema-direita norte-americana.

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que Donald Trump não representa o melhor daquele país. Ao contrário: é apenas uma amostra do que há de pior — inclusive seu chanceler. Não representa Mark Twain, Jack London, Ernest Hemingway ou nenhum dos grandes escritores norte-americanos. Tampouco encarna a grandeza musical de Aretha Franklin, Stevie Wonder ou Duke Ellington. Menos ainda simboliza figuras históricas como Martin Luther King, Malcolm X ou Edward Snowden.

Quem, então, representa a extrema-direita? Supremacistas brancos, homofóbicos, machistas. Em suma, a escória de um império em franca decadência.

Não resistimos a eles por trezentos anos? Não contam com seus lacaios entre nós? Não vendem estes últimos sua liberdade por trinta moedas? O que há, afinal, a temer? Alguma vez nos roubaram a dignidade?

Jamais a entregamos, nem mesmo sob torturas e assassinatos. Sempre que sofremos sua dominação, foi com o coração livre e a certeza de que um dia transformaríamos suas armas em arados. Parafraseando o grande Mario Quintana: eles passarão; nós, passarinhos.

Não nos vendemos ontem, não nos vendemos hoje, não nos venderemos amanhã. Como já afirmava o santo indígena guarani Sepé Tiaraju: “Esta terra tem dono”.

Ao contrário dos que tentam nos recolonizar, lutamos com as armas da educação, do respeito ao outro e, sobretudo, do respeito ao estrangeiro — que, como na língua russa, assimilamos ao amigo (em russo, drug significa “amigo”).

Sabemos, entretanto, que pedófilos, traficantes de crianças e infanticidas, ainda que ascendam à condição de chefes de Estado e de forças armadas, jamais merecerão nosso respeito. Não os confundimos com a cultura riquíssima dos Estados Unidos, mas tampouco toleramos seu imperialismo de ocasião, instrumentalizado para encobrir crimes tão graves quanto a pedofilia, o tráfico de menores e o narcotráfico. Seu dinheiro não nos causa admiração: é fruto de atividades criminosas.

Os assassinos que mataram quarenta integrantes da guarda presidencial venezuelana — sendo trinta e dois cubanos — deixam claro quem são e ao que vieram. Todos os povos do continente já sofreram essas perdas, profundamente, e elas nunca deixaram margem à dúvida: são aves de rapina, para as quais a vida humana não tem qualquer valor.

Não são cristãos, muçulmanos, judeus ou adeptos de qualquer outra religião, pois lhes falta vida espiritual. Seu inferno é aqui, ainda que disfarçado em salões de baile e roupas luxuosas.

Prantearemos os mortos. Mas o pranto maior é pelos mortos-vivos que, por não conhecerem o amor, nada conhecem — sequer Deus, que é amor, como tão bem definiu o evangelista João, o discípulo que Jesus amava.

Isso também nos serve de alerta para os momentos em que deixamos nossa dignidade de lado por causa de um falso amor, de uma amizade enganosa ou de um equívoco relacional. Com efeito, as perdas que mais ferem são aquelas das quais nem sequer nos damos conta. Elas escorrem, desidratam, ferem em silêncio, como doença mal curada.

Em ambos os casos, só o resgate da dignidade pode nos redimir. Para isso, é preciso lutar — consigo mesmo, em primeiro lugar — para que as relações se restabeleçam no patamar da educação, do respeito e, ousando mais, do amor. Porque, como se sabe, amar não é para qualquer um.

Vale recordar, com Achille Mbembe, em Políticas da Inimizade (n-1 edições), que o ódio — o não-amor — é instrumento central do projeto político imperialista:

“Tal atitude exige que, ainda em vida, seja apagado, em sua morte ou relegação, aquilo que em seu rosto o fazia humano. Esse empreendimento de desfiguração e apagamento é praticamente um pré-requisito para qualquer execução na lógica contemporânea do ódio. No seio de sociedades que multiplicam dispositivos de segregação e discriminação, a relação de cuidado foi substituída pela relação sem desejo. Explicar e entender, conhecer e reconhecer já não são indispensáveis. Hospitalidade e hostilidade nunca foram tão antitéticas.”

Em meio à falta de amor, ao descaso e até ao ódio, cabe ainda refletir com Fernando Pessoa:

“A espantosa realidade das coisas
é a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
e é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra
e quanto isso me basta.”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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