É simbólico o MTST entregar moradia para 216 famílias

'Entregar aquela chave nas mãos dela foi para mim um daqueles momentos em que a gente sente que a vida vale a pena'

Foto: MTST

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Opinião

Bete, Rose e Gilvânia são três moradoras da Zona Leste de São Paulo. Elas têm em comum uma vida de trabalho duro, o perrengue de ser mulher periférica e o fato de que, mesmo com muito esforço, não tinham conseguido uma casa para viver dignamente até hoje. Ou melhor, até três semanas atrás, quando foram entregues as chaves do Conjunto Dandara, onde elas vão morar ao lado de outras 213 famílias.

O Dandara é uma conquista do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, após seis anos de luta. Em junho de 2015, um terreno que estava há muito tempo abandonado no bairro de São Mateus foi ocupado pelos sem-teto. Eram centenas de famílias desalojadas, vivendo em áreas de risco ou, principalmente, sem condições de pagar o aluguel. O ciclo de especulação imobiliária em São Paulo nos últimos 15 anos foi perverso: expulsou e despejou muita gente. Bete, Rose e Gilvânia foram algumas dos milhares de trabalhadores moídos por essa engrenagem maligna. Mas não se deixaram abater. E estavam lá, em 2015, com madeira, lona e muita esperança.

Acompanhei esse povo – e essas guerreiras – ao longo dos anos. A batalha foi dura: ameaças de despejo, noites de chuva, muito barro nos pés, longas caminhadas e, enfim, o terreno conquistado. Mas era só o primeiro passo. Depois vieram as intermináveis burocracias para aprovação de um projeto de moradia popular no Brasil e a luta para a liberação de recursos para a construção. Imaginem qual foi a minha emoção em entregar as chaves para esse povo no último dia 5 de março. O espírito coletivo e de luta está estampado nesta conquista e também, é claro, no nome do conjunto – Dandara, em homenagem à guerreira do Quilombo dos Palmares.

O projeto é uma referência: apartamentos com bom acabamento, quadra esportiva, salão de convivência e – a maior novidade – uma grande horta orgânica para a segurança alimentar dos moradores. Além de tudo, alimentação saudável. É o primeiro conjunto habitacional do País com uma iniciativa coletiva como esta. E veio em boa hora, num momento em que o Brasil volta ao mapa da fome, com desemprego explosivo e inflação no preço dos alimentos. Mais que nunca temos de inventar soluções comunitárias, baseadas na cooperação e na solidariedade.

Neste momento me lembro da última campanha eleitoral em São Paulo: o quanto mobilizaram o preconceito contra o MTST para atacar a minha candidatura. Como eu gostaria que aqueles que acreditaram no discurso de que os sem-teto são invasores e vagabundos conhecessem essa experiência. Conhecessem a Gilvânia, com seu carrinho de tapioca em frente ao Metrô Carrão, marcada pela dor da perda de um filho, mas com forças para lutar por seu direito de morar dignamente. Entregar aquela chave nas mãos dela foi para mim um daqueles momentos em que a gente sente que a vida vale a pena.

A inauguração do Conjunto Dandara ganha um simbolismo ainda maior pelo cenário da pandemia. Condições de moradia adequadas, com saneamento básico, espaço e ventilação, são essenciais para se proteger do vírus. Aliás, o primeiro passo para poder “ficar em casa”, sob quarentena, é ter uma casa. Desde o início da pandemia apontamos a necessidade de criar espaços emergenciais de acolhimento para os sem-teto. Eu, Luiza Erundina e o padre Júlio Lancellotti­ entramos com uma ação no Ministério ­Público para obrigar a prefeitura de São Paulo a fazer esse acolhimento. Muito pouco foi feito. É simbólico que neste cenário, sem ter a caneta na mão, o MTST entregue moradia para 216 famílias.

É preciso dizer que esse não é o primeiro conjunto conquistado pelo movimento, por meio da ocupação de imóveis sem função social, da luta por subsídio público e do desenvolvimento cooperativo de projeto habitacional. Foram mais de 15 mil sem-teto beneficiados em todo o Brasil. Só na Região Metropolitana de São Paulo, nos últimos anos, foram três conjuntos além do Dandara: o João Cândido, em Taboão da Serra, para 384 famílias, e os conjuntos Novo Pinheirinho e Santo Dias, em Santo André, para 910 famílias.

Todos são referências na moradia popular: apartamentos grandes, bem-acabados, com varanda, prédios com elevador e amplos espaços de área comunitária. O João Cândido tem os maiores apartamentos do programa Minha Casa Minha Vida (Faixa 1) do Brasil: 63 metros quadrados, com três dormitórios. E isso com o mesmo valor que as empreiteiras utilizaram para fazer apartamentos com 39 metros quadrados, o padrão mínimo do programa. Os “invasores” fazendo escola de moradia digna e de boa gestão do recurso público.

Em tempos tão duros, quando o País atravessa uma das maiores crises humanitárias de sua história, precisamos de esperança. Esperança para não sucumbir diante do genocídio e da barbárie. Esperança para se manter de pé, com sanidade e cultivando sonhos. Uma conquista popular e coletiva tão bonita como o Conjunto Dandara nos ajuda a manter viva essa esperança.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Foi candidato à Presidência da República em 2018, pelo PSOL.

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