Camilo Aggio

Professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas

Opinião

E os policiais no plano de golpe de Jair Bolsonaro? 

O que sugerem os levantamentos feitos das redes de segurança em plataformas digitais

Foto: EVARISTO SA / AFP
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“Imprensa tendenciosa, aprenda: operação policial nunca é chacina”; “enquanto o STF proíbe operações policiais durante a pandemia no Rio de Janeiro, criminosos agem com total liberdade e atiram para cima ao ver um helicóptero passando…”; “Nosso País está se especializando em dificultar e criminalizar a atividade policial e, ao mesmo tempo, criar toda a facilidade e proteção para bandidos”; “sequestro relâmpago. Criminoso estava no saidão. Deixe sua indignação nos comentários. PRECISAMOS ACABAR COM AS SAÍDAS TEMPORÁRIAS”; “estou até agora estarrecido com a liberdade condicional de Elize Mattsunga, que não só matou o marido como o esquartejou”.

“A instituição que está exigindo a presença de segurança nos confins da Amazônia é a mesma que proibiu a polícia de subir o morro do Rio de Janeiro”, diz a legenda para uma meme contendo caricaturas de ministros do Supremo Tribunal Federal.

Estes são alguns de muitas centenas de exemplos de publicações tematicamente similares feitas periodicamente por membros das Forças Armadas e agentes das forças policiais brasileiras em plataformas digitais, segundo levantamentos semanais feitos no âmbito de um projeto de pesquisa coordenado por mim: Observatório de Militares em Plataformas Digitais (OMPD). Originalmente concebido para monitorar e analisar a comunicação de militares das Forças Armadas em ambientes digitais, o projeto passou a também incorporar agentes das forças de segurança em suas amostras.

A razão pela qual trago essas ilustrações extraídas de um corpus muito mais robusto de exemplos está no fato de que essas publicações são representativas da cultura de corporações que estão se tornando cada vez mais cruciais para os destinos da democracia brasileira neste turbulento ano eleitoral de 2022.

Percebam que existem, basicamente, dois adversários ou inimigos desses agentes de segurança: a imprensa e a Justiça. A imprensa por sempre criminalizar agentes da polícia, das Forças Armadas e operações policiais enquanto, por outro lado, adota enquadramentos atenuantes, quando não coniventes e condescendentes com criminosos e com a criminalidade. A própria subversão do sentido de Direitos Humanos como expediente para defender criminosos (ou vagabundos, no jargão policial mais tradicional) decorre dessa percepção tradicional nas polícias e nas Forças Armadas.

Nessa mesma perspectiva, a Justiça dá as mãos à imprensa. O Poder Judiciário nada mais é do que o Estado agindo contra o próprio Estado representado pelas forças de segurança. Trata-se de uma combinação de instâncias e autoridades cujo objetivo principal é sabotar a segurança pública. E segurança pública, na visão desses grupos, nada mais é do que um sinônimo personificado nos agentes de segurança e suas respectivas ações. Não se trata de uma noção baseada em princípios, normas e práticas, necessariamente. Segurança pública é, antes de tudo, esses sujeitos e seus atos. E contra eles, contra a segurança pública, atua a combinação sinérgica de imprensa e Poder Judiciário.

Qualquer semelhança com as agendas de ataques regulares do presidente da República não é mera coincidência. Há um tronco comum que os liga. No entanto, uma mirada pouco cuidadosa pode confundir elementos que os distinguem. São poucos os agentes de segurança monitorados por nossa pesquisa que atacam diretamente o Poder Judiciário nos mesmos termos que o governo federal, ou seja, não são numerosos os que adotam críticas à Justiça sob o ponto de vista eleitoral, levantando suspeitas sobre as urnas eletrônicas e questionando a idoneidade de autoridades competentes. Esse discursos existem, mas, ao menos por enquanto, representa uma expressiva minoria.

E é aqui que reside a questão fundamental: ninguém devidamente informado e suficientemente cético ainda duvida de que Jair Bolsonaro sabe que sua disputa não é eleitoral, nem contra Lula, mas contra a democracia. E seu plano de golpe envolve, necessariamente, as Forças Armadas e policiais.

Em relação às Forças Armadas, creio que a adesão aos planos do capitão reformado já é cristalina. Mas em relação às forças policiais, há dúvidas. E elas são politicamente fundamentais para tocar um estado tamanho de insegurança que justifique medidas excepcionais que permitam que esse governo rasgue (mais uma vez) a Constituição. Dessa vez para ficar no poder de vez ao arrepio (mais uma vez) da legislação eleitoral.

Ainda que nossos monitoramentos não mostrem uma adesão desses policiais aos ataques à Justiça e à imprensa nos moldes políticos claros do governo federal, é fato que, por terem inimigos comuns, há espaço para uma convergência política de agendas. E esse deve ser o trabalho que Jair Bolsonaro e suas tropas pretendem fazer: unir forças contra inimigos comuns, ainda que os termos da inimizade divirjam.

Mas isso ainda não está dado, afinal, os sujeitos tendem a ser multidimensionais em suas aspirações, convicções e atitudes políticas. E policiais não são diferentes. A maioria, além de subvalorizada, ocupa estratos de baixa renda e certamente estão sofrendo com as políticas econômicas desse governo, sem mencionar que não obtiveram o prestígio que imaginaram conquistar com a eleição de Bolsonaro.

Contudo, o jogo está sendo jogado, as afinidades são evidentes e creio que temos demonstrado os possíveis caminhos de convergência. Às autoridades competentes que defendem a democracia, cabe estar atentas a essas sutilezas.  

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Camilo Aggio

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