Opinião
É melhor prevenir
Mesmo que se descubra uma cura para a Aids, é essencial interromper a transmissão do HIV com os recursos que já temos à disposição
Minha geração de médicos viu os primeiros casos de Aids. Foi um choque. Os pacientes vinham com queixas compatíveis com quadros infecciosos de evolução rápida. Mal acabávamos de controlá-los, vinha outra infecção, seguida de outras mais graves, que levavam à morte inexorável sob os nossos olhos.
Desconfiávamos que o agente causador seria um vírus, mas não havia certeza. Ficávamos limitados ao tratamento das doenças oportunistas, consequências da debilidade imunológica instalada.
Três anos depois dos primeiros casos, o vírus foi isolado, o teste para detectá-lo entrou em prática e, em 1985, surgiu o AZT, a primeira droga com ação anti-HIV. Em 1995, os inibidores da protease viral demonstraram alta eficácia. A combinação de drogas, conhecida popularmente como coquetel, mudou tudo: pacientes à beira da morte recebiam alta e voltavam para casa; muitos deles estão vivos até hoje. Foi uma das maiores revoluções da história da medicina.
De esquemas de administração complexos, que implicavam a ingestão de 20 ou mais comprimidos por dia, divididos em várias tomadas, o tratamento evoluiu para um ou dois comprimidos diários que facilitam a adesão e controlam a carga viral por anos consecutivos.
O Brasil teve papel decisivo na redução da velocidade de transmissão do HIV no mundo. Primeiro, porque provamos ser possível oferecer acesso universal aos medicamentos. Segundo, porque fomos os primeiros a demonstrar, em grande escala, que pessoas com cargas virais indetectáveis dificilmente transmitem o vírus.
O problema ainda insolúvel é o de que os medicamentos devem ser mantidos diariamente pelo resto da vida. A interrupção é rapidamente seguida da multiplicação do vírus, do aprofundamento da depressão imunológica e do risco de infecções oportunistas de repetição.
Embora existam alguns pacientes com leucemia curados da infecção pelo HIV, ao receber transplante de medula óssea, os antivirais apenas suprimem a multiplicação do HIV, sem conseguir eliminá-lo do organismo.
Acabam de ser publicados na revista Nature dois estudos independentes, mostrando que um tipo particular de células do sistema imunológico tem papel importante nessas curas funcionais.
No primeiro estudo, pesquisadores do MIT e de Harvard acompanharam pacientes que, além dos antivirais de rotina, receberam anticorpos neutralizadores contra diversas variantes do HIV. De 14% a 22% controlaram a multiplicação do vírus por pelo menos dois meses, depois da suspensão dos antivirais. Um deles manteve a carga viral sob controle durante sete anos, sem nenhum tratamento.
No outro estudo, pesquisadores da Universidade da Califórnia, em São Francisco, recrutaram dez pacientes que haviam recebido uma vacina experimental e uma droga para tentar reduzir os reservatórios do HIV. Depois de receber os anticorpos, sete deles experimentaram controle prolongado da multiplicação viral.
Os dois grupos concluíram que as responsáveis pelo controle da replicação do HIV foram as células de memória (dotadas de receptores CD8), capazes de se multiplicar no organismo quando o vírus começa a se replicar outra vez.
Não está claro por que algumas pessoas produzem essas células imunologicamente competentes em maior número. Michel Nussenzweig, da Universidade Rockefeller, um dos autores dos dois estudos, supõe que, ao se ligarem à superfície do HIV, esses anticorpos neutralizantes formem um complexo que vai estimular o sistema imunológico para recrutar outras células que agridem o vírus.
O desafio agora é estimular a produção dessas subpopulações de células CD8, de modo a torná-las capazes de produzir níveis altos de anticorpos neutralizantes contra as variantes do HIV.
Estudos como esses têm interesse, porque permitem decifrar os mecanismos de defesa que podem ser mobilizados, não só no combate ao HIV, mas contra outros vírus que causem infecções crônicas.
Enquanto os investigadores procuram entender os mecanismos que podem levar à cura da Aids, vamos lembrar que infecções sexualmente transmissíveis não desaparecem quando a cura é encontrada. A sífilis é curada com duas injeções de penicilina benzatina, mas continua se disseminando na maioria dos países.
No mundo, existem perto de 91 milhões de pessoas convivendo com o HIV. É fundamental interromper a transmissão. Os recursos estão à nossa disposição: camisinha, profilaxia pré e pós-exposição. •
Publicado na edição n° 1398 de CartaCapital, em 04 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘É melhor prevenir’
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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