

Opinião
É doutor, mas pouco sabe
O Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica revela as faces ocultas dos cursos de Medicina no Brasil
Avaliação e aprimoramento da educação médica são programas obrigatórios em diversas partes do mundo desde o início do século XX. Entre nós, a divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), em meados de janeiro de 2026, causou assombro.
Os testes evidenciaram o ingresso expressivo, no mercado de trabalho de cuidados à saúde, de profissionais com desempenho insuficiente para exercer medicina. Mesmo no contexto de tensões internacionais, falência e envolvimento de autoridades públicas com banco local e tortura infringida ao cachorro Orelha, o alerta de perigo rondando a saúde tem sido duradouro nas redes sociais e mídias convencionais.
Indagações foram respondidas. Sim. É isso mesmo: a maioria, cerca de 60% dos inscritos, estudou em instituições com conceito 1, 2 ou 3, sendo 7,5% em 24 faculdades conceito 1. Um panorama objetivamente preocupante que vem revelando faces ocultas do ensino médico no Brasil. Faculdades e vagas se concentram em instituições privadas. Entre as dez instituições com maior número de matrículas, apenas uma é pública.
A oferta privada de cursos médicos caracteriza-se pela menor presença de mestres e doutores em seus quadros docentes. A concorrência por uma vaga de Medicina em universidades públicas é acirrada e determinadas privadas admitem alunos com notas abaixo da média geral do Enem.
Alunos que seriam reprovados em faculdades mais bem conceituadas pagam mensalidades superelevadas e terão poucas chances de superar defasagens anteriores, em razão do pouco contato com atividades de pesquisa, professores envolvidos com ciência e práticas supervisionadas.
Mesmo quem vinha alertando sobre a expansão acelerada e predatória de faculdades privadas de Medicina se surpreendeu. Eram esperadas as tentativas atabalhoadas da Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) de impedir a divulgação dos resultados do Enamed e a reiteração do exame de ordem como bala de prata contra médicos com baixo desempenho.
O sobressalto ocorreu quando um grupo empresarial proprietário de 20 faculdades, 18 com conceitos 2 ou 3, aproveitou o embalo para publicar um encarte, no qual postula soluções para o futuro da medicina no Brasil. Um confundimento proposital entre causas e consequências, situado na fronteira do descuido.
Parte das reações ao Enamed comprova: há um conjunto de grupos empresariais e mercados em torno da formação médica. Certamente, o mais proeminente é o das vagas, mas não são desprezíveis as disputas em torno da avaliação/certificação de escolas médicas, possibilidades de apropriação da autorização para a preparação, realização e correção de provas e cursos para aprovação de graduados. Recursos de fontes governamentais e privadas envolvidos com a expansão de faculdades se somariam aos potencialmente mobilizáveis para avaliaçãrnativamente, pesquisadores fundamentados em experiências internacionais, apoiam o Enamed e sugerem avaliações seriadas e a adoção de um ponto de corte para o ingresso em cursos de Medicina. Nada de novo, apenas uma rota já trilhada em países que possuem comitês para avaliação dos cursos vinculados a órgãos públicos. Apesar de diferenças quanto à maior ou menor presença de faculdades privadas, por exemplo entre EUA e Alemanha, exames unificados para o ingresso na graduação, ao longo do curso e admissão na residência, são responsabilidades governamentais.
Propor regras disparatadas e declarações de grupos privados em torno de avaliações, sem embasamento em boas experiências e melhores evidências, não fecundam um campo fértil para aferição de desempenho.
Avaliações são essenciais para movimentar um processo permanente de adaptações de currículos, definição de competências, que requerem maior atenção à saúde pública, determinantes sociais da saúde, mudanças climáticas e inclusão. A exposição de alunos apenas a mensagens, atitudes e normas implícitas que moldam uma percepção pouco comprometida com a saúde da população é incompatível com as exigências da profissão. Médicos bem formados são os que têm acesso à excelência técnico-científica e a valores de justiça social. •
Publicado na edição n° 1399 de CartaCapital, em 11 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘É doutor, mas pouco sabe’
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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