E a casa virou uma zona federal

No calendário ainda é fevereiro e já estamos em março. Mas, tanto faz

(Foto: iStock)

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Opinião

Logo ele, leonino, tão vaidoso e organizado. Desde aquele vinte e dois de fevereiro de dois mil e vinte, sua casa começou a virar uma zona. Desde que a faxineira mandou um zap dizendo que ia ficar em casa com medo do corona, as cápsulas estão transbordando na máquina de Nespresso, xícaras e pires foram quebrando e a mesa do café nunca mais foi a mesma. Xícaras pretas, pires branco, pratinho de flores amarelas.

O sofá tem um pé quebrado, escorado por um livro grosso jamais lido. A luz do banheiro, uma está queimada e a outra piscando. A garrafa de água mineral com gás está no fundo da geladeira há dias, sem gás. A rede na varanda está cheia de pelos de cachorro, apesar do vento que bate forte todo final de tarde. O alecrim morreu, o hortelã murchou e o pé de boldo está todo furado pelo cactos, seu vizinho. Os passarinhos do relógio piam rouco porque a pilha está fraca, quase no fim.

 

Os livros lidos estão espalhados em cima da escrivaninha, nunca foram para a estante: Ninguém pode com Nara Leão, Meu nome é Ébano, O Último Tropicalista, A salvação pela Pintura, Os Anos de Chumbo, Je vous écris de Paris, O veneno da Madrugada, A vida não é Útil e O Ar que me faz Falta, do Luiz Schwarcz. CDs, também tem uns oito empilhados esperando a hora de voltar pro escaninho. O primeiro da fila é Mauvaises Nouvelles des Étoiles, do Serge Gainsbourg, morto há trinta anos.

Os potes de vidro na cozinha estão assim: arroz no vidro escrito feijão, lentilha escrito no vidro onde tem fubá, açúcar mascavo num vidro escrito nada, farinha de trigo no vidro escrito farinha de mandioca do Pará. A pá de plástico amarela que de tanto usada já não recolhe mais os ciscos, está atrás da porta junto com o rodo que tem a borracha seca. Uma garrafa de cerveja Martina estourada numa gaveta do congelador, uma garrafa de cachaça de jambu vazia no bar. Doze pacotinhos de chá Twinings Fresh vencidos em janeiro dentro da caixinha de chá aqui ao lado do computador, roupas para costurar empilhadas numa das prateleiras do armário que está com a porta meio bamba.

 

Um adesivo Fora Temer desbotado em frente aos cinco livros do Elio Gaspari, um Fora Bolsonaro novinho, em frente aos dois volumes de Mitologia do Kaos, do Jorge Mautner. A máquina de lavar roupas faz um barulho estranho na hora de secar, treme muito e sai andando. Hora dessas ela vai embora.

Uma boca do fogão não acende, o pôster War is Over, da Yoko Ono, está torto no corredor, e uma máscara da 3M está sumida há dias. Os vinis estão empoeirados, o tubinho de Super Bonder seco, um pote de creme Nivea vazio no armarinho do banheiro, dois pedacinhos de sabonete já sem cheiro no box, roupas pra passar.

No calendário ainda é fevereiro e já estamos em março. Mas, tanto faz.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

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