Opinião

Donald Trump vai escapar do impeachment. Mas ele se reelegerá?

A moral da história é: para reelegerem o presidente, os republicanos venderam a alma. E terão de pagar esta dívida um dia

O presidente norte-americano Donald Trump Foto: Brendan Smialowski/AFP
O presidente norte-americano Donald Trump Foto: Brendan Smialowski/AFP

O Senado norte-americano vai se reunir esta semana para inocentar o presidente Donald Trump das acusações de abuso de poder e obstrução do Congresso.

Um desfecho óbvio para um espetáculo com consequências duvidosas.

Quando os parlamentares democratas compraram esta briga, sabiam que o maior obstáculo seria romper as linhas partidárias do Senado, onde os republicanos compõem uma apertada maioria. Com um cenário político completamente polarizado e com o trumpismo contaminando até as raízes do Partido Republicano, havia praticamente nenhuma chance de o presidente sofrer impeachment.

A aposta dos democratas era uma só: contaminar Trump na campanha eleitoral deste ano e talvez render uma vantagem para o eventual candidato do partido, com Joe Biden, Bernie Sanders e Elizabeth Warren disputando, de acordo com as pesquisas, as primeiras posições nas Primárias.

Vale recordar que todo o processo de impeachment está diretamente relacionado a Biden e a pressão feita por Trump ao presidente da Ucrânia para iniciar uma investigação e desencavar informações comprometedoras sobre Hunter Biden, filho de Joe Biden, quando ele compôs o conselho diretor de uma importante empresa ucraniana de gás – empresa esta envolvida em vários escândalos de corrupção —, e que pudessem prejudicar um dos principais rivais de Trump na corrida presidencial. Resumindo, um chefe-de-Estado usando de sua influência política para pressionar uma nação estrangeira para influenciar em sua campanha de reeleição.

O mais surpreendente foi certamente o reconhecimento de alguns senadores de que Trump cometeu de fato irregularidades, mas que removê-lo do cargo em ano eleitoral poderia gerar instabilidades sociais nos EUA. Eleições sem Trump é golpe?

Este é um argumento que até poderia ser considerado se não abrisse um perigoso precedente constitucional: se um presidente como Trump não pode sofrer impeachment pelos crimes cometidos, então quais crimes são passíveis de impeachment?

Donald Trump

Os republicanos denunciavam todo o processo como uma farsa, mas a farsa ocorreu justamente no Senado, quando eles se recusaram a sequer convocar importantes testemunhas, como o ex-conselheiro de Segurança Nacional John Bolton, que poderiam iluminar toda a operação na Ucrânia.

Levitsky e Ziblatt nos alertam sobre os riscos deste tipo de manobras políticas em “Como as democracias morrem”, e justamente por ser um processo essencialmente político que os republicanos se viram na posição de fechar fileiras e proteger um presidente altamente problemático e que nos bastidores é criticado até por seus correligionários. Dane-se a constituição! O risco eleitoral era alto demais e poucos republicanos resolveram pagar o preço para extirpar este câncer que está matando o partido.

Isto abre as portas para a reeleição de Trump, ao mesmo tempo em que instiga também uma reação. Do mesmo modo que as eleições parlamentares de 2018 permitiram uma visível renovação na Câmara dos EUA, pode ser que este também seja o ponto de virada para cristalizar a resistência contra Trump e mobilizar eleitores insatisfeitos em alguns estados críticos, conhecidos como swing states, ou seja, estados nos quais não há uma clara vantagem eleitoral para qualquer um dos dois partidos e que podem afetar de maneira considerável o resultado do pleito.

Nos EUA, com voto facultativo, as abstenções são tão importantes quanto os votantes. Portanto, o grande desafio dos democratas nos próximos meses será apresentar um candidato capaz de mobilizar segmentos sociais que já não acreditam mais na política a saírem de suas casas e votarem. Ativistas pretendem canalizar a raiva em torno da absolvição de Trump para inflamar o eleitorado.

Este é um sinal de que a polarização política, este elemento corrosivo e, pelo que tudo indica, inerente aos processos políticos contemporâneos alimentados pelas redes sociais, continuará dividindo cada vez mais os EUA.

A moral da história é: para reelegerem o presidente, os republicanos venderam a alma. E terão de pagar esta dívida um dia.

Henry Bugalho

Henry Bugalho
Henry Bugalho é curitibano, formado em Filosofia pela UFPR e especialista em Literatura e História. Com um estilo de vida nômade, já morou em Nova York, Buenos Aires, Perúgia, Madri, Lisboa, Manchester e Alicante. Por dois anos, viajou com sua família e cachorrinha pela Europa, morando cada mês numa cidade diferente. Autor de romances, contos, novelas, guias de viagem e um livro de fotografia. Foi editor da Revista SAMIZDAT, que, ao longo de seus 10 anos, revelou grandes talentos literários brasileiros. Desde 2015 apresenta um canal no Youtube, no qual fala de Filosofia, Literatura, Política e assuntos contemporâneos.

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