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Doença ou não?
A revista The Lancet defende o reconhecimento da obesidade como doença crônica para que ela seja tratada de forma abrangente e sem estigmas
Alguns consideram a obesidade uma doença, outros preferem classificá-la como uma condição de risco para uma série de complicações. As duas visões dividem o mundo científico.
Os que defendem a primeira posição argumentam que se trata de uma doença crônica que contribui para mais de 200 enfermidades, entre as quais hipertensão arterial, diabetes, diversos tipos de câncer e doenças cardiovasculares, as principais causas de morte na maioria dos países.
Os contrários a essa denominação argumentam que não podemos chamar de doente uma pessoa assintomática, sem queixas, com exames laboratoriais dentro da normalidade, que vive o cotidiano sem limitações.
Em relação ao preconceito social, a divergência persiste. Os primeiros acham importante caracterizá-la como doença, para motivar os que sofrem dela a procurar ajuda, a adotar um estilo de vida que inclua atividade física regular e alimentação saudável, longe do cigarro e das bebidas alcoólicas.
Seus oponentes consideram que o estigma estimula o preconceito da sociedade, que ainda considera indivíduos com obesidade como incapazes de controlar o apetite e fazer exercícios. Para eles, pessoas com essa condição serão barradas nos exames médicos de admissão nas empresas: se estão doentes, não devem ser contratadas. Além do mais, o rótulo contribuirá para medicalizar a obesidade e desprezar as medidas de prevenção.
As descobertas científicas recentes, no entanto, demonstraram que, do ponto de vista biológico, a obesidade provoca um quadro inflamatório crônico que está por trás de grande parte das complicações associadas a ela. E que o peso corpóreo é controlado por mecanismos de alta complexidade que fogem dos limites da assim chamada força de vontade.
Embora a Organização Mundial da Saúde calcule que, nos próximos anos, pelo menos a metade da população do mundo estará na faixa da obesidade, muitos países continuam a considerá-la questão de escolha pessoal e se negam a criar programas de saúde pública para enfrentar o problema. Essa política de avestruz tem grande impacto na disseminação da epidemia.
Contribui para essa visão preconceituosa a ausência de critérios universais para o diagnóstico de obesidade. O Índice de Massa Corpórea (calculado pela fórmula IMC = peso em kg/altura x altura em metros) é prático e simples de calcular, mas tem sido cada vez mais criticado. Isso porque ele não leva em conta, por exemplo, a medida da circunferência da cintura, indicador importante do acúmulo de gordura intra-abdominal, reconhecido fator de risco para doenças cardiovasculares.
Num longo artigo, a revista médica The Lancet discute a falta de políticas de saúde pública para as populações mais expostas a alimentos ultraprocessados e a cidades sem espaços para a prática de atividades físicas em segurança. Esses são alguns dos fatores ambientais que explicam por que mulheres, crianças e pessoas que vivem na pobreza são afetadas de forma desproporcional. É o que acontece nos países mais pobres da África, onde os índices de obesidade nas mulheres são três vezes maiores do que nos homens.
Em editorial, a revista defende o reconhecimento da obesidade como doença crônica, com a finalidade de lançar as bases de uma resposta global coordenada que privilegie a inclusão de condutas clínicas, justifique o acesso aos agonistas do receptor GLP-1 (semaglutida, tirzepatida e outros), reforce a adoção de leis que aumentem a carga tributária dos alimentos ultraprocessados e das bebidas açucaradas.
A publicação propõe uma estratégia abrangente, essencial para expandir o tratamento, integrar os serviços de saúde com os de outras doenças crônicas, combater o estigma, reforçar medidas fiscais e regulatórias. Recomenda ainda que a resposta global aproveite as lições aprendidas com a epidemia de HIV: estigma zero, barreiras zero para o acesso ao tratamento e aumento zero na prevalência.
Segundo a revista, os passos nesse caminho impõem: reconhecer a obesidade como doença, regular o ambiente alimentar, integrar a obesidade à atenção básica, educar para enfrentar o estigma e a discriminação e investir nos sistemas de saúde dos países mais pobres.
Um país como o nosso, que dispõe do programa Estratégia Saúde da Família que chega às casas de quase dois terços da população, deve incluir os cuidados com a obesidade nas visitas dos agentes comunitários que batem de porta em porta. •
Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Doença ou não?’
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