Alberto Villas

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Jornalista e escritor, edita a newsletter 'O Sol' e está escrevendo o livro 'O ano em que você nasceu'

Opinião

Dinorah! Dinorah!

Atriz, estava sempre no palco da vida. Dramática, gesticulando, sangue vermelho de ânimo nas veias, real

Foto: Arquivo Pessoal/Alberto Villas
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Não existe outra igual, nem parecida. Olha que já corri mundo, já percorri a Europa, o Oriente, a América do Sul, do Norte, Central. Fisicamente, já vi. Mas por dentro, Dinorah é única.

A primeira vez que a vi foi na Rua Carangola, no oitavo andar da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais. No primeiro dia de aula, ela nos deixou impressionados. Eu era um cabeludo qualquer, calça Lee boca de sino, camiseta desbotada por água sanitária, sandálias com solado de pneu compradas no Mercado Modelo de Salvador.

A cabeça era cheia de caracóis e sonhos.

Dinorah me pareceu uma mulher feita, talvez a mulher de 30 que Miltinho cantava no meu radinho de pilha, capa de couro, dependurado no porta-toalhas, enquanto tomava banho. Mulher que já viveu, que já sofreu… mas ela não trazia no rosto o olhar triste. Muito pelo contrário.

Hoje, eu diria que ela nos impactou.

Atriz, estava sempre no palco da vida. Dramática, gesticulando, sangue vermelho de ânimo nas veias, real.

Assim que soube do meu sonho de fazer um jornalzinho do curso de Jornalismo, ali na que chamamos de Fafich, se juntou a mim. Numa dessas manhãs de fevereiro de 1971, rodamos o primeiro número num mimeógrafo a álcool, emprestado pelo professor Anis Leão.

Cheirosos, saímos os dois distribuindo o jornalzinho como se fossemos um Roberto Marinho da vida distribuindo o primeiro número do Globo nas ruas de Copacabana. Como se fosse um Otávio Frias entregando de mão em mão o primeiro exemplar, ainda quentinho, da Folha da Manhã, para a Pauliceia desvairada.

Sempre gostei de conversar com Dinorah. Era uma mulher espetáculo, um capítulo à parte, particular. Fizemos alguns números do Flã – era assim que se chamava nosso jornalzinho – quando eu peguei o primeiro avião com destino à felicidade, deixando pras trás o mimeógrafo, o curso de Jornalismo, a Faculdade de Filosofia. E Dinorah.

Foram muitas cartas no exílio, cartas bem escritas, com letra de quem aprendeu bem a lição, ainda lá na sua Santo Antônio do Monte, a cidade dos fogos de artifício.

Eu estava em Paris, mas aqui, Dinorah é que era a festa. Nossos encontros são raros, diríamos raríssimos. Mas sempre soube dela, das suas andanças, da sua atuação impecável, firme e forte à frente do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais.

Neste ano, no alto do salto dos seus sapatos e no alto dos seus mais de 80 anos, Dinorah botou o seu bloco na rua. Acabo de receber um vídeo em que ela aparece sambando com a faixa de rainha do Carnaval. Eu sempre achei que ela era mesmo uma rainha.

Que bom que a bateria de Dinorah não tem fim.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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