Diferença geracional nas redes como um lugar de potência

Alianças entre jovens e jovens velhos podem evitar que direitos básicos conquistados a duras penas não sejam perdidos.

Logomarca da empresa americana Twitter. Foto: Olivier DOULIERY/AFP

Logomarca da empresa americana Twitter. Foto: Olivier DOULIERY/AFP

Opinião

Nas últimas semanas, a palavra cringe entrou no trend topics – palavras mais comentadas – no Twitter e desencadeou uma discussão interessante sobre as gerações millenial e z. Essas gerações são o que consideramos juventude oficialmente (pessoas de 15 a 29 anos, aproximadamente). As discussões giravam em torno dos diferentes usos das redes sociais entre os jovens “mais jovens” e jovens “mais velhos”. E como os segundos faziam coisas que deixavam os primeiros com vergonha alheia.

No meu entendimento, a questão era justamente sobre as diferenciações dentro das juventudes e como isso se intensifica com os usos das redes sociais e tecnologias. Dessa maneira, observa-se que não é possível pensar os jovens em uma categoria fechada e fixa por eles serem plurais e diversos.

Essa discussão me chamou atenção para outro ponto que acho valer a pena de ser trazido aqui. O meu foco é pensar as juventudes negras e a questão intergeracional de forma política e ampliar uma discussão a partir desses temas. Essas temáticas não são novas e inúmera(o)s intelectuais produziram vastamente sobre elas. Ao invés de trazer novas ideias, penso que aqui é um espaço de possibilidade para discutir e ampliar essas discussões.

Socióloga feminista negra estadunidense Patricia Hill Collins. Foto: Valter Campanato/Ag. Brasil.

Em seu artigo Freendom Now! (2009) a pensadora Patricia Hill Collins aponta as diferenças de ação política entre as juventudes branca e negra estadunidenses nos anos 1968. A década de 1960 foi marcada por intensas lutas políticas e mudanças sociais e culturais. Ambas pensavam a questão da liberdade, mas de forma diferente: a primeira buscava pela liberdade sexual e pela tentativa de “fuga” das expectativas das gerações mais velhas (no caso, seus pais), como, por exemplo, ingressar em uma boa universidade e conseguir um bom trabalho. Já a juventude negra buscava pela liberdade como forma de emancipação, por justiça social e contra as lutas segregacionistas. Para ela, a educação era a ferramenta principal para se alcançar essas demandas.

Tais lutas eram para que as gerações seguintes não passassem pelas mesmas situações que as anteriores, ou seja, as lutas diziam respeito ao futuro da população negra.

Collins fala sobre um momento e um lugar específico, mas seu texto pode auxiliar para pensar o cenário brasileiro (e o futuro).

A educação sempre foi pauta para as populações negras brasileiras que, também, tiveram acesso negado à educação de qualidade. Diante disso, inúmeros grupos culturais e políticos se organizavam para garantir grupos de leitura, ensino, etc para essa população, como: a Frente Negra Brasileira, o Teatro Experimental do Negro e tantas, tantas outras. Além disso, somente em 1990 é criado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que busca preservar os direitos, inclusive a obrigatoriedade de se frequentar a escola. Ou seja, os millenials foram os primeiros que tiveram acesso à cidadania. Isso é muito recente…

Outro exemplo, é somente em 2012 que é aprovada a Lei de Cotas, garantindo a democratização do ensino superior e o ingresso da população negra nas universidades. Muitos jovens negros são os primeiros de suas famílias a frequentarem tal espaço.

Essas leis são resultados de lutas muito antigas e por isso a frase “nossos passos vêm de longe” faz tanto sentido. Inúmeros grupos culturais e políticos lutaram, e ainda lutam, para que a sociedade seja mais democrática e justa para os que virão. E a juventude negra sempre atuou nesses grupos.

Nesse contexto de retrocessos, sucateamento do sistema de ensino e da saúde, mais vale pensar no que almejamos para o presente e, principalmente, para o futuro. Qual Brasil queremos deixar para nossos sobrinhos, filhos e para os que nem nasceram ainda?

Enquanto uma jovem velha, penso que são as nossas diferenças dentro das juventudes que podem garantir avanços e mudanças sociais significativas. Usamos as mídias sociais para lazer, mas também para divulgação de conhecimento e discussões. E, talvez, esse seja o ponto alto dos usos da internet.

Mais do que discutir se Friends ou Harry Potter é bom ou não – talvez vale a pena a discussão de como a série é composta somente por brancos e os indícios de ser um plágio da série Living Single uma série anterior protagonizadas por atores negros – precisamos nos articular para evitar que direitos básicos conquistados a duras penas não sejam perdidos. E não só: precisamos de mais, o que temos é o básico.

Nessa discussão do Twitter, eu refleti sobre como, mesmo que haja o ponto de diferenciação geracional, ainda houve a exclusão de outras formas de juventudes, sobretudo a negra. E, ao mesmo tempo, como essas tecnologias são usadas de formas mais política por umas do que por outras.

No atual contexto, mais vale as formas de alianças políticas entre, não só a juventude, mas toda a população a fim de evitar perder o que já conseguimos… Somos heterogêneos e plurais e nossas diferenças não podem ser marcadores de desigualdade. O assunto pode parecer novo, mas a estratégia vil de apagamento do passado, para nós pessoas negras é antiga e não nos beneficia em absolutamente nada.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Mestranda em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR).

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