A coragem e a ousadia de Zé Cláudio e Maria, mortos há 10 anos, ainda ecoam

O dia 24 de maio, um dia manchado de sangue, tornou-se no Pará um dia de luta no campo

Os ambientalistas Zé Claudio e Maria, assassinados em 2011 (Foto: Felipe Milanez)

Os ambientalistas Zé Claudio e Maria, assassinados em 2011 (Foto: Felipe Milanez)

Opinião,Sustentabilidade

No dia 24 de maio de 2011, há exatos dez anos foram assassinados José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo. Moradores de Nova Ipixuna, no Pará, o casal de castanheiros e ambientalistas  foi vítima de uma emboscada montada por dois pistoleiros no assentamento agroextrativista Praialta Piranheira, há oito quilômetros de onde moravam. Morreram ao passar por por uma ponte feita de troncos de madeira caindo sobre um igarapé.

Na mesma data, há quatro anos, ocorreu na fazenda Santa Lúcia, em Pau D’Arco, também no Pará, o massacre de 10 camponeses pela polícia. O dia 24 de maio, um dia manchado de sangue, tornou-se no Pará um dia de luta no campo.

Tanto no assassinato de Zé Claudio e Maria quanto no massacre de Pau D’Arco, a impunidade e omissão da polícia nas investigações provocam revolta e indignação. 

 

No caso do assassinato do casal, inicialmente houve uma dupla investigação, da Polícia Civil e da Polícia Federal – uma interceptou escutas das ações da outra. A PF havia captado indícios que envolveriam um pequeno consórcio em Nova Ipixuna, bancado por um fazendeiro dono de uma loja agropecuária, e um pequeno fazendeiro, também assentado, que grilava terras e ampliava suas posses expulsando famílias. Eles teriam incentivado José Rodrigues Moreira, um grileiro que havia chegado um ano antes, a dar cabo da morte, encomendando a um de seus irmãos e a um segundo pistoleiro.

Mas o delegado da Polícia Civil, apoiado por inexperientes procuradores do Ministério Público, não quis investigar essa rede, e cuidou de “estancar a sangria”, no mais pobre dos mandantes. 

Em 2011, diante do escândalo do assassinato, a polícia do Pará organizou uma megaoperação para prender José Rodrigues, seu irmão e o pistoleiro, encontrados escondidos no fundo de um ramal que cortava a floresta na cidade de Novo Repartimento. Contei o caso uma reportagem para a revista GQ.

Três anos depois, José Rodrigues foi absolvido no primeiro julgamento em Marabá. A Polícia Federal chegou a captar conversas nas quais ele pedia para estes dois fazendeiros pagarem seu advogado, se não ele iria contar tudo. O “investimento” funcionou.

Três anos depois, em 2016, Rodrigues foi novamente julgado pelo Tribunal de Justiça do Pará, em Belém. Ali, como se o judiciário quisesse fazer justiça e reparar os erros, foi condenado de forma exemplar. Mas José Rodrigues estava estava foragido, escondido – e até hoje segue nessa condição.

Seu irmão, Lindonjonson Silva Rocha, condenado há 42 anos de prisão, junto do pistoleiro Alberto do Nascimento, conseguiu fugir em novembro de 2015 pela porta da frente do presidio Mariano Antunes, em Marabá, sendo recapturado apenas em agosto do ano passado. 

José Rodrigues Moreira, o mandante condenado, está foragido. Dois outros mandantes impunes seguem a vida de violência na região, certamente sentindo-se amparados pela república das milícias.

Coragem e ousadia

A gente aprende a conviver com a dor. Ela fica ali, às vezes imóvel, às vezes ardente. Com o tempo, a dor diminui a intensidade, e outras memórias ganham força. Essas lembranças ajudam a enfrentar os desafios, a mirar um futuro diferente. O tempo dá mais sentido a algumas conversas, que ressoam como se tivessem sido ditas ontem,. Hoje eu acordei, depois de dormir pensando e sonhando muito com Zé Claudio e Maria, acordei me lembrando de algo Maria me disse em outubro de 2010.

– Porque para mim, a pior fraqueza do ser humano é a omissão. É a omissão. O que é de minha condição e possibilidade, a gente faz. Mesmo não vendo nada disso acontecer, a gente não fica de braços cruzados.

Diante da violência a que estavam expostos, ela reagia de forma altiva:

– Da luta tudo a primeira coisa importante, do livro como eu pretendo escrever esse livro, é a ousadia.

E pergunto: qual que é a ousadia? De vocês conseguirem ter a terra e viver na floresta?

E Maria responde:

– Eu acho que a ousadia ela é uma coisa que alimenta. Pra mim, é o que alimenta a luta.

Zé Claudio também era marcado, tal como Maria, pela indignação diante da omissão, e na entrevista que fizemos, ele reforçava que preferia a coragem à omissão.

– Eu tenho medo mas, no mesmo instante que eu tenho medo, além de eu ter a minha obrigação como cidadão, é… o impulso que eu tenho quando eu vejo uma injustiça, me tira o medo. Me faz com que eu tenha coragem de lutar. Porque, o homem é o que ele é. Então, se você tem coragem de lutar, lute. Porque mais antes você morrer tentando, do que morrer omisso.

Nos dias que enfrentamos hoje, mais do que nunca precisamos de coragem e de ousadia. Para a luta, é importante coragem e é importante ousadia. E o pior, para a luta é a omissão. Diante da tragédia sanitária que vivemos e do fascismo que enfrentamos, não podemos ser omissos, e é preciso ter coragem e ousadia.

A coragem e a ousadia de Zé Claudio e Maria hoje permanecem vivas e inspirando novas gerações. Claudelice Silva Santos, irmã de Zé Claudio, e Laisa Santos Sampaio, irmã de maria, nunca deixaram o legado desaparecer, e tornaram-se, nesses anos, referencias internacionais de defensoras da floresta, da luta de defensores, e das ideias em defesa da floresta. 

No lote do casal, o Grupo de Trabalhadoras Artesanais Extrativistas, segue inspirando o “convívio com a floresta”, como dizia Maria, aprendendo com a floresta e a defendendo.

Familiares fundaram o Instituto Zé Claudio e Maria, hoje coordenado por Claudelice Santos. É possível acompanhar o trabalho deles no Instagram. No Spotify, há uma belíssima série de podcasts produzidas por Claudelice junto de Fred Mauro e Biancamaria Binazzi. Há trechos das entrevistas que fiz com Maria e Zé Claudio no lindo sábado de sol de 9 de outubro de 2010, um dia que eu nunca vou esquecer. Um dia que guardo com muito carinho, e cujas mensagens seguem inspirando a todas e todos que escutam suas vozes.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Professor de Humanidades na Universidade Federal da Bahia. Pesquisa e milita em ecologia política.

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