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Devemos abrir os olhos
A consecutiva ausência da Itália em Copas do Mundo carrega um aviso claro para o Brasil: se houver soberba e má gestão, o abismo é logo ali
Ao que tudo indica, teremos a necessária chacoalhada no futebol brasileiro. Temos acompanhado com ânimo renovado as iniciativas da nova direção da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), sob a presidência de Samir Xaud.
Desde a sua eleição, o mandatário anunciou medidas que podem, enfim, mudar o patamar do nosso esporte.
Prova disso foi a recente reunião com os 40 clubes das séries A e B, focada na união em uma Liga única, cujo estatuto tem publicação prevista para este ano.
As notícias são promissoras, embora o nó górdio continue sendo a divisão de valores – especialmente porque os direitos de transmissão já possuem contratos amarrados até o biênio 2029/2030.
Estudos comprovam que o “produto” futebol brasileiro é subvalorizado em relação às grandes ligas europeias.
O que aumenta a esperança é ver que assuntos antes negligenciados entraram na pauta.
Dois desses assuntos são o absurdo do calendário, algo que combatemos com insistência neste espaço, e a busca por rendimento econômico sem critério, cuja solução passa obrigatoriamente pela aplicação do fair-play financeiro.
Outras questões urgentes dizem respeito ao descontrole das arbitragens, ao êxodo precoce de talentos e ao elevado número de estrangeiros atuando por aqui – atualmente, no Brasileirão, são permitidos, por partida, nove atletas estrangeiros.
Sobre este último ponto, deixo aqui a provocação: tem sentido a opção por um número ímpar se buscamos equilíbrio?
Somado a isso, temos a polêmica dos gramados sintéticos. A ausência de padronização fere a regra da isonomia.
Já começa a ser aventada a hipótese de serem exigidos, ao menos nas partidas das séries A e B, gramado natural e segurança dos torcedores – algo que, embora seja dever do Estado, precisa ser defendido pelos clubes em respeito ao seu maior patrimônio.
Não por coincidência, a semana trouxe declarações lúcidas de Pedrinho, presidente do Vasco, e de Leila Pereira, do Palmeiras.
Ambos reconhecem que os clubes devem atuar em conjunto. O vascaíno ponderou que, no momento, a CBF ainda deve organizar os campeonatos, lembrando que “somos adversários, não inimigos”.
A dirigente do Palmeiras, por sua vez, foi certeira. “Precisamos uns dos outros; não jogo sozinha”, afirmou.
No entanto, no varejo do campo, o cenário ainda é de indisciplina. O bloqueio sistemático de árbitros por mais de dez jogadores – como vimos em clássicos como Flamengo vs. Santos e Vasco vs. Botafogo – é algo que não pode mais ser tolerado.
Quanto ao calendário, o Fluminense, a exemplo de outros, sofre as consequências: teve de ir a Curitiba sem sete titulares, devido ao acúmulo de 18 jogos em curto espaço de tempo.
Já o Corinthians, que tentava evitar a cultura de culpar apenas o técnico, sucumbiu à instabilidade atual. Após resultados negativos, o Timão foi interrompendo diferentes ciclos e agora busca um rumo à turbulência.
Uma nota curiosa em meio a este cenário é o sucesso do Mirassol. O percurso do time me parece emblemático.
Ao se classificar para competições continentais, o time acabou obrigando o aeroporto de São José do Rio Preto a se internacionalizar, para receber a equipe argentina do Lanús.
Na quarta-feira 8, o time do interior paulista entrou em campo para disputar o primeiro jogo de Copa Libertadores da sua história. Além disso, o clube agora se estrutura para o futebol feminino, uma exigência para quem deseja frequentar os grandes palcos.
No plano internacional, continua repercutindo a ausência da Itália na Copa de 2026. É assustador ver a Azzurra deixar de ser o Eldorado do futebol para amargar ausências consecutivas em Mundiais.
O declínio de potências como Inter, Milan e Juventus, somado à queda do Napoli, é um espelho de um perigoso processo.
Entre 1980 e 2000, os italianos conquistaram oito Champions League. Hoje sofrem com crises financeiras, escândalos de apostas e o excesso de estrangeiros que sufoca a base dos clubes.
O nível da dor italiana foi resumido pelo tenista Jannik Sinner: “Trocaria um dos meus títulos para ver a Itália na Copa”.
É um aviso claro para o Brasil: entre a soberba e a má gestão, o abismo é logo ali. Devemos abrir os olhos. •
Publicado na edição n° 1408 de CartaCapital, em 15 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Devemos abrir os olhos’
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