Aldo Fornazieri

Doutor em Ciência Política pela USP. Foi Diretor Acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), onde é professor. Autor de 'Liderança e Poder'

Opinião

Desgoverno global

O mundo parece mover-se como um trem sem freios, em alta velocidade e rumo ao abismo

Foto: SILVIO AVILA / AFP
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As catástrofes climáticas estão por toda a parte. Chegaram mais cedo do que a humanidade esperava e com fúria inaudita. Enchentes devastadoras e secas desertificantes vêm ocorrendo em todos os cantos do planeta. Pessoas morrem de calor na Índia e no Canadá. Furacões intensos destroçam territórios ­norte-americanos. A Alemanha e o Rio Grande do Sul enfrentam inundações assustadoras. Nenhum continente está isento de destruições.

Os pontos de não retorno em vários biomas avançam e as tendências entrópicas do meio ambiente como um todo se agravam diariamente. O mundo parece mover-se como um trem sem freios, em alta velocidade e rumo ao abismo. O grande risco para a humanidade e todas as espécies são as transformações em curso, a indicar tendências paradoxais, para o bem e para o mal. Algumas delas indicam possibilidades de soluções colaborativas. Outras acenam para soluções divergentes, trágicas e violentas. Infelizmente, as tendências destrutivas estão ganhando o jogo.

Algumas transformações apontam para um cenário apocalíptico. As principais, segundo numerosos especialistas, são as seguintes: agravamento da crise climática pela intensificação do novo período geológico do Antropoceno; caminhada rumo ao ponto da singularidade digital de 2045 (domínio das máquinas sobre os humanos); advento do transumanismo e de nova biopolítica com tendências desumanizadoras; um nova Guerra Fria entre potências do Ocidente e do Oriente; intensificação de conflitos armados regionais, como os da Ucrânia e Gaza; impacto dos grandes deslocamentos transnacionais (migrações de fome e escassez, de guerras e de refugiados ambientais); ameaça à sobrevivência das democracias pelo fortalecimento do extremismo de direita.

O problema é que não existem governos com capacidade para enfrentar as catástrofes climáticas, estancar as ações de depredação do meio ambiente e imprimir direção e sentido às transformações em curso. Com isso crescem as tendências de acirramento dos conflitos sociais, políticos, econômicos e militares, tanto internos quanto internacionais.

As tendências conflitivas assentam-se em três razões principais: 1. Os impactos das mudanças climáticas provocam escassez de recursos e isto desencadeará a luta por recursos diversos. 2. A salvação do meio ambiente planetário e da vida implicará mudanças drásticas em relação às quais haverá resistência de grupos econômicos e de Estados. Em determinadas circunstâncias, é provável ser necessário o uso da força para a contenção da crise e para alcançar os objetivos da sustentabilidade. 3. As medidas de mitigação dos efeitos catastróficos e os investimentos necessários para mudar os padrões de produção, de consumo, de vida urbana, de energia e das políticas públicas em geral exigirão somas estratosféricas. Ocorrerão grandes disputas para determinar quem pagará os custos dessas mudanças. As forças hegemônicas dos mercados e do capitalismo globalizado agem para socializar os prejuízos e privatizar os benefícios.

O atual cenário global não favorece o enfrentamento eficaz da crise ambiental nem é capaz de viabilizar um desenvolvimento sustentável no sentido forte do termo. Ao contrário, as catástrofes ambientais e as mudanças indicadas acima agravam a governabilidade global e interna.

Esse quadro de crise tem estimulado saídas particularistas e nacionalistas nos diversos países, favorecendo a competição em detrimento da colaboração. Isso reforça o descompromisso dos Estados com os acordos firmados nos fóruns internacionais. Os nacionalismos extremados de direita alimentam teorias negacionistas sobre as mudanças climáticas.

Por outro lado, a desmaterialização provocada pela economia digital aumenta a extraterritorialidade de atividades produtivas e comerciais, enfraquecendo a regulação nacional, provocando um domínio crescente do mercado financeiro e das plataformas digitais oligopolistas, aumentando o impacto das externalidades sobre as economias locais, fragilizando a regulação jurífica de justiça e de proteção ambiental e social. Essas circunstâncias deterioram a capacidade de coordenação das instituições multilaterais e das jurisdições internacionais e supranacionais.

A captura política dos Estados nacionais por grupos particularistas e depredadores é um enorme problema, agravado pelo crescimento dos movimentos de extrema-direita, que adotam políticas negacionistas e de desmonte das proteções sociais e ambientais. É necessário aumentar a consciência dos riscos sistêmicos e engajar a sociedade nesse debate. Somente com consciência social, organização e mobilização seremos capazes de deter esse trem sem freios que se move rumo ao abismo. •

Publicado na edição n° 1314 de CartaCapital, em 12 de junho de 2024.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Desgoverno global’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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