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Deixemos a história de mito para os imbecis
Dificílimo criar um hábito, qualquer um. Eu me confesso um procrastinador crônico e inveterado
Este espaço fala sobre literatura, então o foco está no escrever, mas se sinta à vontade e troque para qualquer outro ato em que haja o duelo caquético entre transpiração x inspiração, talento x trabalho, brilho divino x suor humano. O ponto: escrever é hábito. Simples, direto.
Inspiração é mito. Mito. M-i-t-o.
Muita gente me faz as mesmas perguntas. Como faço para escrever? De onde vem a inspiração, a criatividade? Como vencer a página em branco? Respondo a mesma coisa, que me foi ensinada muito tempo atrás. Escrever começa com o olhar, não com os dedos. Ao entender que tudo tem história e profundidade. A flor no jardim, balançando com o vento, não é apenas flor. Narra um caminho inteiro até chegar ali, é povoada por centenas de animais, é sol, chuva, será outras tantas flores no futuro. Poético demais? Não. Budista demais, talvez. (Obrigado por tanto, Thich Nhat Hanh.)
Lei número 1: pegue esse véu obtuso que cobre seus olhos e rasgue agora. O mundo não está tão idiota à toa.
Após observar, aí sim há como preencher alguma página em branco. Exercício diário, fluxo, sem trégua. Ninguém corre uma maratona treinando esporadicamente. Nem fica forte indo à academia vez em quando. Nem cozinha aventurando-se apenas no Dia das Namorados.
Hábito. Observação. Insistência.
Uma palavra primordial para o ato de escrever: repertório. Tomo a liberdade de narrar aqui, com o perdão de qualquer desvio, a história do escritor Marcelo Maluf, autor de um romance lindo chamado A Imensidão Íntima dos Carneiros. Ele, ainda novato, teve um encontro com Lygia Fagundes Telles e fez a pergunta corriqueira, como escrever mais e melhor? Lygia, gênio, respondeu: anote aí, rapaz. Ler, ponto. Ler, ponto, Ler, ponto. Parágrafo. Escrever, ponto. Escrever, ponto. Escrever, ponto final.
Simples e dificílimo criar um hábito, qualquer hábito. Eu me confesso um procrastinador crônico e inveterado. Fosse diferente, teria uma produção extensa. Aos 50 anos, tenho um livro publicado, outro de poesia nas mãos de uma editora e um terceiro, romance, em fase final de acabamento. Pouco? Muito? Ok, não importa o volume, mas o processo, que batalho para aprimorar e tantas vezes saio derrotado. Eu, procrastinador, não desisto.
Observar, observar. Ler, ler, ler. Escrever, escrever, escrever. A inspiração, rara, até aparece, normalmente quando se reescreve uma cena, se desdobra uma personagem. Quase nunca antes.
Escrever é reordenar o mundo que vejo. Fosse pintor, seria o mesmo. Ou fotógrafo, escultor, compositor, cantor, desenhista. Ou confeiteiro, cozinheiro. Ou corredor, jogador de futebol. Ou bancário, contador, caixa de supermercado.
Quando você pensar novamente em escrever, olhe os livros que estão em sua mesa de cabeceira, eles precisam estar vivos. Então saia de casa, olhe uma árvore, uma pedra, as pessoas que passam. Além de criar repertório para encarar a página em branco, você certamente se tornará mais humano.
Lei número dois: deixemos a história de mito para os imbecis.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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