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Deixa o povo decidir
E se Lula convocasse um plebiscito sobre a jornada 6×1?
Por dever de ofício, faço análise política pela lógica do eleitor. Não pela do governo, não pela da oposição. O que importa é como o brasileiro escuta o que se passa em Brasília. E é por essa lente que vale fazer um exercício de imaginação política sobre o que aconteceria se o governo Lula resolvesse articular um plebiscito sobre o fim da jornada 6×1.
A Constituição prevê o instrumento. O artigo 14 lista plebiscito, referendo e iniciativa popular como formas de soberania popular. A Lei 9.709, de 1998, detalha o trâmite: a convocação se dá por decreto legislativo proposto por um terço dos integrantes de qualquer uma das Casas do Congresso. Bastam 171 deputados ou 27 senadores para protocolar. Para aprovar, são necessários 257 votos na Câmara e 41 no Senado. Existe também a possibilidade de um projeto de iniciativa popular. Números desafiadores, mas não é isso que importa nesta análise. O que importa é o que essa simples campanha por assinaturas faria com a eleição.
Vamos imaginar.
Lula sobe na tribuna em maio e diz: “O Congresso pode aprovar a redução da jornada por PEC ou por Projeto de Lei, e nós continuaremos defendendo isso. Mas, se houver dúvida, se houver tentativa de descaracterizar a vontade popular, o povo decide”. Em seguida, articula sua base para começar a colher assinaturas pela convocação do plebiscito. Não importa se a coleta vai dar 171 ou 200 nomes. Importa que ela começa.
A partir desse momento, três coisas acontecem ao mesmo tempo, e nenhuma depende do resultado final.
Primeira: o tema ocupa o centro da campanha eleitoral. Os dados que reunimos no Locomotiva mostram que mais de 70% dos brasileiros apoiam o fim da 6×1. Quando uma pauta com esse tamanho de adesão entra na disputa como pergunta direta – você quer ou não quer decidir isso? –, toda a campanha passa a girar em torno dela. Cada candidato a deputado, a senador, à Presidência, precisa se posicionar. Ficar em cima do muro deixa de ser opção.
Segunda: a oposição entra numa armadilha sem saída elegante. Para barrar o plebiscito, o parlamentar de direita precisa argumentar contra a consulta direta ao povo sobre uma pauta com tamanho apoio popular. Isso é veneno em ano eleitoral. Para apoiar, ajuda Lula a transformar o tema em eixo da disputa. Para silenciar, deixa o governo ocupar o espaço sozinho. E aqui aparece o ponto. O eleitor que rejeita o petismo e também rejeita o bolsonarismo, esse pedaço grande do Brasil que não se reconhece em nenhum dos dois lados, encontra na convocação do plebiscito uma régua moral simples, quem quer me dar voz, quem quer me calar.
Terceira, e talvez a mais subestimada: a campanha pelo plebiscito vira o palanque mais barato e legítimo da eleição. Reúne CUT, Força Sindical, periferias, igrejas, juventude do TikTok e donas de casa que não vão a comício em torno de uma causa única. É o tipo de mobilização horizontal que o campo popular não constrói há quase uma década, e que aparece pronta quando o tema é o tempo do trabalhador.
O bilhete que precisa estar colado na parede de qualquer estrategista governista em 2026 é simples: o plebiscito não precisa acontecer. A campanha por ele já entrega o dividendo. Mesmo que o decreto nunca chegue ao plenário, a coleta de assinaturas, os atos públicos, os comitês de bairro, as urnas simbólicas em ponto de ônibus, em terminal de metrô, em porta de fábrica, já produzem o efeito principal, deslocar a eleição do registro da inflação, da segurança e da pauta de costumes para o registro do tempo, da família e da dignidade do trabalhador.
A oposição passa o segundo semestre tentando explicar por que o povo não pode votar diretamente sobre o próprio descanso. O governo passa o segundo semestre dizendo a mesma frase em cada cidade: “Deixa o povo decidir”. Não há mensagem mais difícil de derrotar do que essa, porque ela é simultaneamente popular, democrática e constitucional.
Faço análise pela lógica do brasileiro médio, do eleitor que entende quem está do lado de quem quando alguém o consulta diretamente. A pergunta que sobra para o governo, nesse exercício de imaginação, é por que ainda não fez? A que sobra para a oposição é o que dirá ao próprio eleitor quando o tema da consulta direta ocupar o centro do debate. Quem chegar a outubro com a frase “deixa o povo decidir” colada na lapela larga com vantagem. Quem chegar dizendo que essa não é a hora chega tarde demais. •
Publicado na edição n° 1412 de CartaCapital, em 13 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Deixa o povo decidir’
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