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Das curvas à caverna

A arquitetura de Niemeyer abre caminho para uma reflexão sobre modernidade, milícias e a omissão das instituições.

Das curvas à caverna
Das curvas à caverna
Edifício Copan. Em forma de “S”, a arquitetura do prédio, localizado na Avenida Ipiranga, está sempre evidente no horizonte das principais vias do centro. Foto: Marcelo Camargo/ABr
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“…a modernização não se operou pela superação da religião, mas pela convivência com ela… Mais do que uma simples oposição, os modernismos englobados pela Semana de 1922 apresentam uma maneira ambivalente, e por vezes contraditória, de articulação entre os projetos futuristas para a arte, a valorização das raízes culturais brasileiras e, entre elas, o legado estético do repertório religioso, produzido ao longo da colonização.”
Edilson Pereira, Emerson Giumbelli e Rodrigo Toniol

As curvas da arquitetura de Oscar Niemeyer não são as mesmas do barroco mineiro?

Seria acaso que o primeiro grande projeto do arquiteto carioca tenha sido realizado na capital de Minas Gerais, Belo Horizonte? Ou seria sincronicidade artística?

O conhecimento não se assemelha a uma corrida de revezamento, em que uma geração passa inspiração e saber fazer à outra?

Recomendo Copan, documentário de Carine Wallauer sobre o icônico edifício paulistano projetado por Niemeyer. Aliás, o único defeito do filme é não dar essa informação essencial.

Vale notar que, no Brasil, não é obrigatório constar na edificação o nome do arquiteto — o que, per se, denota nosso desprezo não apenas pelo processo construtivo, mas por todo e qualquer processo. Quando entenderemos que todo viajar é viagem, e que a chegada é apenas o seu final?

A película sobre o Copan, com seus 5 mil moradores, é um microcosmo de São Paulo, com todas as contradições dessa sociedade tão estratificada, cultural e socioeconomicamente.

Apesar disso, o filme consegue recolher poesia, tanto nas relações interpessoais quanto nas vistas aéreas do edifício e de suas vizinhanças na metrópole.

Malandro do bem, como todo bom carioca — não é o caso da família Bolsonaro, que, aliás, é paulista, da pequena Eldorado, onde fica a Caverna do Diabo, outra sincronicidade —, Niemeyer plantou uma onda gigante em pleno centro de São Paulo.

Em uma cidade — há que se reconhecer — bastante feia, criou uma marca, qual flor de beleza no jardim de concreto. Um verdadeiro presente do Rio de Janeiro.

Falando da caverna do capeta: por que os militares não invocam o crime de traição à pátria para o que Flávio e Eduardo Bolsonaro praticaram nos Estados Unidos da América, instigando Trump a declarar o PCC e o Comando Vermelho organizações terroristas? Para o crime de traição, a pena prevista não é de morte?

Quanto custou essa operação junto aos escritórios de lobby em Washington? Não foi assim que se tomaram as decisões? Os milhões roubados pelo Master dos aposentados e pensionistas não teriam servido para isso?

Vale notar que atacar o PCC e o CV, como escrevi nesta coluna, interessa diretamente às milícias cariocas, que competem com essas facções pelo domínio de territórios e de atividades criminosas.

Flávio Bolsonaro não é embaixador delas, como deixou claro ao condecorar o chefe Adriano da Nóbrega, na prisão, empregando ainda a mãe e a ex-esposa dele em seu gabinete, para que Adriano pagasse a pensão a ela com o dinheiro do contribuinte fluminense?

Quando os bandidos não são penalizados, acabam por expandir as redes criminosas.

Vejamos o caso de Paulo Guedes, que, não contente em ter destruído a economia brasileira, com privatizações as mais suspeitas, agora assessora o candidato de extrema direita ao governo do Rio Grande do Sul.

Em Como nasce um miliciano, publicado pela editora Bazar do Tempo, Cecília Olliveira esclarece:

“A redemocratização, iniciada em 1985 e celebrada em todo o país, forçou os grupos de extermínio a se adaptarem e buscarem novas formas de atuação… Enquanto esses grupos de extermínio se rearranjavam, o tráfico de drogas também passava por um período de expansão. Naquele momento, traficantes e milicianos ainda atuavam em esferas relativamente independentes, com pouca interação direta. Essa dinâmica mudaria nas décadas seguintes, com uma crescente disputa por áreas de controle, busca de maior lucratividade e envolvimento de milícias no comércio de drogas. A conexão entre os dois se intensificaria mais tarde, no fim da década de 1990 e início dos anos 2000.”

O seguinte parágrafo da obra esclarece de forma meridiana o interesse dos Bolsonaros em eliminar a concorrência do PCC e do CV, em benefício das milícias, razão do empenho deles na declaração do desgoverno estadunidense:

“Também amplamente reproduzido pela imprensa, o discurso do ‘mal menor’ apresentava, numa visão simplista, as milícias como uma alternativa ‘menos pior’ ao tráfico de drogas, e foi endossado ao longo do tempo por políticos como César Maia, Eduardo Paes e Flávio Bolsonaro, entre muitos outros. Essa visão minimizava a gravidade dos crimes cometidos por milicianos e contribuía para a sua aceitação por parte da sociedade. Maia finge que isso nunca aconteceu, Eduardo Paes se retratou, e Flávio… Bem, o Flávio é o Flávio Bolsonaro.”

Ainda sobre Adriano da Nóbrega, homenageado e com a família empregada no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj — paga, portanto, pelo contribuinte fluminense —, a jornalista relembra:

“…Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), ganhou notoriedade nacional durante as investigações sobre a execução da vereadora Marielle Franco… Nóbrega foi apontado como chefe do chamado Escritório do Crime, um grupo de matadores de aluguel que operava no Rio de Janeiro a serviço de bicheiros.”

Tudo fica claro como o dia: o modelo das milícias, em que setores do Estado delinquem e se aliam ao crime organizado, tenta se impor em âmbito nacional mediante a candidatura da extrema direita.

Para isso, não hesitam em fazer embaixadas junto a governos de mesma cepa, prometendo em troca as riquezas nacionais, inclusive empresas públicas, e até a própria soberania nacional.

Os defensores dela — pela Constituição, as Forças Armadas — nada têm a dizer?

Em caso negativo, ficam, mais uma vez, as perguntas: para que e a quem servem? Vale a pena investir ainda mais recursos nelas, como muitos, até de centro-esquerda, têm propugnado?

Vale refletir a respeito.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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