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Da Liberdade ao Paraíso

Opinião

De repente, o vagão para. ‘Estamos aguardando a manobra do trem à frente’, avisa uma voz de mulher. Lembro imediatamente daquele filme de Clint Eastwood em que Matt Damon é um vidente. Este filme tem duas cenas impressionantes, na verdade três: o começo em que você se sente pego por um tsunami junto com a protagonista em férias na Indonésia, o atropelamento e a morte de um dos irmãos gêmeos que cuidam da mãe viciada, que leva o outro irmão a uma busca incessante por respostas, e a terceira cena impressionante, para mim, acontece quando este mesmo menininho vai entrar no vagão de um trem, seu boné cai e ele não entra. Logo depois, o trem explode. Eram os atentados de Londres e ele é salvo. Então, após assistir esse filme, eu sempre acho que entrar ou não num vagão pode ser algo que vai definir o meu destino, e quando a porta se fecha na minha frente, ou quando eu entro no último milésimo de segundo, respiro fundo e agradeço.

Voltando à cena real. Eu, que tinha entrado no vagão, e estava sentada olhando para chão, começo a olhar para os lados quando o trem bruscamente para, procurando algum rosto que me confortasse, ou que fizesse um gesto com a sobrancelha como quem compartilha uma situação mas não pretende que isso vire uma conversa. Olho para o lado e um homem que está sentado tira um caderninho de dentro de um envelope pequeno. Fica muito concentrado lendo, alheio ao meu olhar de esguelha, curioso, para o que está escrito. O caderninho é como uma carteira de trabalho, com alguns carimbos e assinaturas. Consigo ler o que está escrito: livramento condicional. A voz de mulher diz que a estação Liberdade está com problemas e espera que os passageiros entendam. Fico um tanto estupefata com a coincidência. Sinto-me com a urgência de conversar com ele e logo solto:

— Nossa, você notou que desligaram o trem?

— Não!

E olha para os lados assustado.

— Desligaram, é?

–Sim!

— Você acredita que eu não sabia separar as linhas?

–Como assim?

— Eu não sabia, por exemplo, que tinha que sair do metrô para pegar outra linha. Eu achava que elas eram todas juntas, que uma chegava à outra.

–Ah, entendi. A baldeação, né? Mas por que, você estava fora?

–Estava.

–Onde?

— Eu estava preso.

(Uau!, pensei. Ele falou na lata! Segurei a onda e continuei).

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— Ah, é, e foi preso por quê?

– Ih, um monte de coisas. Sequestro, roubo, formação de quadrilha. Lá dentro é um inferno, sabe. Não tem essa coisa de fazer sem querer. Se você xinga alguém sem querer, vão tirar satisfação e entender tintim por tintim por que xingou, e se foi sem querer, que não é para fazer nada sem querer.

Uma mulher ao nosso lado começa a falar no celular.

–Você sabe por que ele foi assaltado? Menina, ele estava no orelhão e falou que tinha 700 reais. Alguém ouviu e assaltou ele, acredita?

Enquanto isso, o rapaz ao meu lado me conta tudo.

–Que nem um colega meu falou pra mim. Robson, vê só. Entrei na cadeia com 18 anos, agora tenho 32. Antes eu tinha dente, cabelo, família. Agora não tenho mais nada disso. Aquele lugar acaba com você. Só tem maldade e pensamentos ruins.

–E como é a sensação de estar solto?

–Ah, é ótimo. A liberdade é maravilhosa. Lá eu passei frio, fome, calor. Fazia dois anos que não tomava água gelada. Que delícia que é tomar água gelada, tinha esquecido como era bom!

O homem, que agora eu sei que se chama Robson, me conta detalhes. O trem recomeça a andar. Passa pela estação Liberdade. Meu celular começa a tocar. Não atendo. Ele continua.

–Lá você não é ninguém. Na prisão você só é alguém para Deus.

E Robson, subitamente, levanta e se despede. Estamos na estação Paraíso, onde eu também deveria descer, mas permaneço imóvel.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Escritora, poeta e jornalista paulistana. Escreveu os livros de poesia "In Vitro" (2004), "As Calotas Não Me Protegem do Sol (2010) e "Tudo o que Mãe Diz É Sagrado", este último pela editora Leya, prefaciado por Eliane Brum e Ignácio de Loyola Brandão. Publica crônicas e contos em revistas literárias.

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