Gustavo Freire Barbosa

gustavofreirebarbosa@cartacapital.com.br

Advogado, mestre em direito constitucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Coautor de “Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução”.

Colunas

Da Alemanha de Hitler ao gesto de Musk

O fascismo, no fim das contas, é uma alavanca de emergência que o capitalismo aciona em momentos de crise

Da Alemanha de Hitler ao gesto de Musk
Da Alemanha de Hitler ao gesto de Musk
Elon Musk em evento da posse de Donald Trump, em 20 de janeiro de 2025. Foto: Reprodução
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Em 1942, o filósofo Max Horkheimer escreveu: quem não tem disposição de criticar o capitalismo deveria se calar sobre o fascismo.

Sua lógica era simples: o nazifascismo, expressão do colonialismo clássico em território europeu, é o capitalismo que decidiu comer sem garfo e faca. Propagandistas liberais, como Ludwig von Mises, reconhecem isso ao atribuir méritos ao fascismo por, segundo ele, ter salvo a civilização europeia da ameaça bolchevique.

O fascismo, no fim das contas, é uma alavanca de emergência que o capitalismo aciona em momentos de crise. Não é um ponto fora da curva, mas uma medida extrema da qual se lança mão para proteger as classes dominantes do avanço do povo trabalhador organizado.

A tradição de Hitler e Mussolini é a tradição do imperialismo dos séculos XIX e XX. Em virtude de suas unificações tardias, Alemanha e Itália chegaram atrasadas na partilha do mundo. Hitler admirava publicamente a colonização britânica na Índia, tendo manifestado, por mais de uma vez, o desejo de replicá-la. Até suas ambições imperialistas baterem de frente com as do Reino Unido, contava com a admiração pública de gente como Winston Churchill.

Por isso, o gesto de Elon Musk na posse de Donald Trump foi coerente. Musk, que já fez campanha pelo partido AfD, gestor do espólio nazista na Alemanha, é um bilionário herdeiro de uma mina de esmeraldas na Zâmbia. É membro destacado da classe social que costuma recorrer ao fascismo para manter seus privilégios. O fato de não ter se constrangido é, por si só, sintoma de uma derrota histórica cujas feridas seguem abertas.

O revés do Eixo na 2ª Guerra Mundial e o surgimento da URSS como potência internacional pareceram desativar a alavanca do fascismo. Ainda, a existência de um bloco socialista estimulando revoltas anticoloniais em países periféricos forçava o Ocidente capitalista a adotar parâmetros mínimos de civilização tanto internamente quanto internacionalmente. Foi nesse contexto que antigas colônias como Vietnã, Cuba, Argélia, África do Sul, Angola e Moçambique tornaram-se independentes.

Com o fim da União Soviética, os países centrais ficaram à vontade para jogar sua coleira civilizatória no lixo, avançando para formas ainda mais predatórias. No rescaldo do enfraquecimento da classe trabalhadora em todo o planeta, a alavanca do fascismo voltou a ficar visível – inclusive em suas premissas racistas. Basta notar que os louvores da turma de Trump a uma suposta supremacia do Ocidente liberal e capitalista é, na verdade, um ataque aos “bárbaros orientais” da China, hoje a maior pedra no sapato dos EUA.

“Não há uma canalhice cometida por Mussolini entre 1922 e 1940 que não tenha sido louvada e guindada aos céus pelas mesmas pessoas que agora prometem levá-lo a julgamento”, escreveu George Orwell em 1943.

Mais cedo do que tarde, esta sentença deve ser atualizada com novos nomes.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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