Arthur Chioro

Ex-ministro da Saúde

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Cuidar da vida

Após o colapso da governança sanitária vivenciado entre 2019 e 2022, o Brasil voltou a ter projeto, direção e compromisso nas políticas públicas de saúde

Cuidar da vida
Cuidar da vida
Profissionais de Saúde atuam em meio a pandemia da covid-19. Foto: José de Holanda
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No Dia Mundial da Saúde, o Brasil tem, sim, o que comemorar. Não se trata de ufanismo vazio. Saímos de um período marcado por negacionismo, desorganização institucional e corrosão deliberada das políticas públicas para retomar o caminho da defesa da vida, da ciência e do SUS.

O contraste não poderia ser mais evidente. Entre 2019 e 2022, assistimos a um colapso da governança sanitária. A pandemia de Covid-19 expôs as consequências de escolhas políticas que desprezaram a ciência, sabotaram a coordenação federativa e fragilizaram o SUS. O resultado: mais de 700 mil mortes, que jamais podem ser esquecidas, sofrimento evitável e desigual para os mais pobres e vulneráveis.

A partir de 2023, inicia-se um processo consistente de reconstrução, com a implementação das prioridades expressas no programa de governo de Lula em 2022, indicando um alinhamento claro entre compromisso e ação.

O primeiro eixo da retomada foi o financiamento. A recomposição do orçamento da saúde rompeu com o estrangulamento imposto pelo teto de gastos e permitiu recuperar a capacidade operacional do SUS. Entre 2022 e 2025, a aplicação mínima em ações e serviços públicos de saúde cresceu 77%. A PEC da Transição garantiu recursos emergenciais, enquanto o novo arcabouço fiscal restabeleceu a vinculação constitucional, assegurando previsibilidade e estabilidade para o SUS.

Com recursos, planejamento e coordenação, os resultados começaram a aparecer. Um dos exemplos mais emblemáticos é a redução das filas para consultas, exames e cirurgias. Em 2025, o País atingiu a marca de quase 15 milhões de cirurgias eletivas, um crescimento de 41% em relação a 2022. No mesmo período, o aumento de consultas especializadas foi de 133% e o de exames especializados de 37%, graças ao Programa Agora Tem Especialistas.

Essa resposta se deu com a ampliação de recursos e mobilização de capacidades existentes. A rede de hospitais universitários federais, coordenada pela HU Brasil, por exemplo, promoveu mutirões e ampliou turnos cirúrgicos. Um exemplo concreto de como o SUS, quando bem gerido, é capaz de responder com eficiência e escala.

Outro pilar da reconstrução foi a retomada de ações estruturantes. Voltamos a ter o maior programa de imunização do mundo, com aumento na cobertura das 16 vacinas infantis. O Mais Médicos atingiu o maior número de profissionais da história, com 27,4 mil médicos em atuação, quase o dobro de 2022. O Farmácia Popular foi ampliado e, em 2025, tornou-se integralmente gratuito para os itens ofertados, alcançando quase 27 milhões de brasileiros. Políticas que ampliam o acesso, reduzem desigualdades e fortalecem a atenção primária.

A agenda da equidade também voltou ao centro da política pública. A crise humanitária no território Yanomami foi enfrentada com ação direta do Estado, resultando em redução expressiva das mortes por desnutrição. Programas voltados à saúde das mulheres, populações indígenas, quilombolas e ribeirinhas foram retomados e ampliados.

Mas talvez um dos movimentos mais estratégicos – e menos visíveis no debate público – seja a reconstrução do Complexo Econômico e Industrial da Saúde. Retomar a produção nacional de insumos estratégicos, como insulina, dispositivos médicos e medicamentos biotecnológicos e investir em inovação, inclusive com o desenvolvimento de vacinas, não é apenas uma agenda econômica. É uma questão de soberania.

Ao mesmo tempo, novos desafios se impõem. As mudanças climáticas impactam o perfil epidemiológico e a organização dos serviços de saúde. A resposta do SUS a eventos extremos, epidemias e desastres ambientais exigirá capacidade de adaptação e investimento contínuo. Iniciativas como o AdaptaSUS apontam para essa nova fronteira, integrando saúde, ambiente e desenvolvimento.

Celebrar o Dia Mundial da Saúde não é ignorar problemas e desafios que persistem. Nossas desigualdades regionais são profundas e o subfinanciamento histórico não se resolve em poucos anos. Mas o Brasil voltou a ter projeto, direção e compromisso com a vida.

Depois de anos de destruição, reconstrói sua política de saúde com base em evidências, solidariedade e responsabilidade pública. E isso, em um mundo cada vez mais incerto, não é pouco. É, ao contrário, motivo legítimo de celebração – e de renovação da esperança no SUS como uma das maiores conquistas civilizatórias do Brasil. •

Publicado na edição n° 1408 de CartaCapital, em 15 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ”

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