Frente Ampla

Cuidado! O salto alto é a principal armadilha nas eleições

É sempre bom ter em mente o tamanho da montanha a escalar

Cuidado! O salto alto é a principal armadilha nas eleições
Cuidado! O salto alto é a principal armadilha nas eleições
O presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Fotos: Ricardo Stuckert/PR e Evaristo Sá/AFP
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Eleições 2026

É atribuída ao marxista italiano Antônio Gramsci, citando o romancista francês Romain Rolland, uma frase lapidar, que deveria ser talhada em pedra como ensinamento eterno para a luta política: “pessimismo da inteligência, otimismo da vontade”. Em outras palavras, é necessário fazer um diagnóstico rigoroso da realidade para projetar as ações adequadas a transformá-la.

Digo isso porque considero necessário e prudente alertar sobre os riscos de cometermos um erro típico de quem está no governo: se deixar contaminar pelo diagnóstico edulcorado e calçar o salto alto no lugar das sandálias da humildade. E, como sabemos, nada é mais avesso a eleições do que entrar de salto alto.

Ao que parece, há setores na esquerda contagiados por um excesso de otimismo sobre o cenário eleitoral, como se Lula fosse imbatível e Flávio Bolsonaro um pangaré pronto a ficar pelo caminho na primeira curva. Essa é uma visão míope sobre a batalha real, que será duríssima, o que só ajuda a nos desarmar para o combate. É necessário ter os pés no chão e controlar a emoção.

É verdade que chegamos ao ano eleitoral com muita coisa a mostrar, a economia crescendo, o desemprego nos menores níveis históricos, a inflação sob controle e com o governo em franca atividade. Desde meados do ano passado, sobretudo quando resgatamos a bandeira nacional das mãos do bolsonarismo, conseguimos sair da defensiva e recuperar terreno e popularidade.

As grandes manifestações contra a PEC da Impunidade, o PL da Dosimetria e outras medidas absurdas patrocinadas pela maioria do parlamento contribuíram para pressionar o Congresso a aprovar pautas importantes do governo e que terão grande repercussão na vida do povo, como a isenção de imposto de renda até 5 mil reais.

Contudo, com a divisão política que se cristalizou no Brasil no último período, mesmo com todo esse esforço, o que se projeta para as eleições é uma disputa apertada, uma nova guerra por uma pequena fração pendular do eleitorado. A última pesquisa Quaest mostrou Lula liderando em todos os cenários, verdade, mas com uma margem entre 4% e 8% sobre Flávio no 1º turno, a depender dos candidatos, e 5% no 2º turno. Não há, portanto, espaço para erros e muito menos para acomodação!

O próprio presidente Lula está consciente que não será uma disputa fácil. Conversamos longamente na volta de uma viagem internacional e ele me disse que o atual mandato entregou até mais do que os outros, mas que, na atual conjuntura, além das realizações e melhorias na vida do povo, torna-se necessário desconstruir o bolsonarismo e projetar novas perspectivas que tragam esperança à população. Ainda bem que Lula está mais mobilizado do que muitos de nós.

É sempre bom ter em mente o tamanho da montanha a escalar. Teremos que lutar contra todo tipo de golpes baixos, a influência da máquina de fake news montada pela extrema-direita em escala mundial, agora vitaminada pelos instrumentos de IA, a força do poder econômico real, dos governos dos estados mais populosos do país, de milhares de prefeituras e muito mais.

Além disso, está em curso um claro projeto de naturalização do fascismo com a candidatura de Flávio. Reparem que ele tem aparecido nas entrevistas e nas próprias redes sociais como o Bolsonaro que come de talher, o Bolsonaro light, para se tornar mais palatável a setores refratários aos arroubos do pai. Já está em busca de um novo “Posto Ipiranga” da confiança do mercado para chamar de seu. E, pasmem, no cúmulo da cara de pau, saiu-se nas redes como defensor da ciência e utilizando linguagem neutra de gênero. Tudo falso, mas com cálculo.

Inexplicavelmente, até o momento, o Zero Um está jogando solto, sem um volante para lhe dar combate, sem que ninguém com memória lembre seus pecados de verões passados. Enquanto isso, nosso campo está sendo obrigado a explicar a péssima repercussão do desfile de uma escola de samba. Não dá para atravessar a rua para escorregar na casca de banana desse jeito!

Esse rapaz é o novo expoente da extrema-direita e, menos histriônico que o pai, representa um risco ainda maior à democracia. É hora de um freio de arrumação, porque a naturalização do fascismo é o maior de todos os perigos e isso precisa ser dito com todas as letras ao povo brasileiro.

Flávio vive da política desde o início dos anos 2000, é o próprio sistema, apesar de querer se passar como antissistema. Flávio é traidor da pátria, tanto que defendeu o tarifaço de Trump contra o Brasil junto com o pai e o irmão. Flávio é amante da ditadura militar, regime sanguinário que defendeu diversas vezes em manifestações públicas. Flávio é reacionário, opositor de todas as agendas relacionadas aos direitos humanos. Flávio é negacionista, um dos principais defensores da atuação criminosa do governo Bolsonaro na pandemia. Flávio é violento, amigo e amante de milicianos, policiais assassinos e torturadores. Flávio é corrupto, chefe de Queiroz, seu assessor direto e operador das “rachadinhas”, dono de imóveis milionários comprados com dinheiro vivo. Enfim, Flávio é BOLSONARO!

Não quero jogar água no chope de ninguém, mas a dimensão da luta que estamos prestes a travar exige menos oba-oba e mais foco, pé no chão, realismo. Pessimismo da inteligência, otimismo da vontade! Xô salto alto! Esse é o maior inimigo em qualquer eleição.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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