Crônica: Por enquanto, tudo vai dando errado

'Tudo começou logo no primeiro dia do ano de dois mil e dezenove', escreve Alberto Villas

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Isac Nóbrega/PR

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Isac Nóbrega/PR

Opinião

Tudo começou a dar errado logo no primeiro dia do ano de dois mil e dezenove, quando aqueles cavalos, revoltados, empinaram na Praça dos Três Poderes.

Assustados, fizeram cocô ali mesmo no asfalto, espalhando um mau cheiro pela Esplanada dos Ministérios. Algum piadista presente, diria: vai dar merda! E nada deu certo durante um ano inteiro.

A floresta começou a ser devastada por tratores amarelos, todos clandestinos, deixando clarões e mais clarões que podiam ser vistos a olho nu pela janela oval de qualquer bimotor.

O Pantanal em chamas queimou as patas das onças, os pelos dos tamanduás, os bicos dos tuiuiús e transformou em cinzas os ipês tabaco, branco e roxo.

O ministro da Educação determinou que os alunos cantassem o hino nacional antes das aulas, mas logo depois caiu. O ministro e a ordem. De nome difícil de escrever e pronunciar, nome feio mesmo, ele disse que os vagabundos do Supremo Tribunal Federal deveriam estar na cadeia. Tudo dava errado.

O preço do arroz foi às alturas e até mesmo o arroz com feijão de cada dia, muitos ficaram sem comer.

A população crescia a olhos vistos debaixo dos viadutos da maior cidade do País, a mais populosa, a mais rica, dizem.

Chuvas inundaram as periferias e os repórteres não cansaram de dizer que aquelas pessoas perderam tudo do pouco que tinham.

Aí chegou o réveillon, os brasileiros vestiram branco, pularam sete ondas, singraram barquinhos com Iemanjá pelas ondas do mar.

Palmas brancas foram vistas boiando, num vai e vem insistindo em voltar para a areia da praia.

Foi quando, poucas semanas depois, chegou uma notícia de Wuhan, uma cidade chinesa que ninguém nunca tinha visto no mapa, mas que, graças ao Google, ficaram sabendo que é lá que fabricam os carros elétricos que circulam pelas ruas da Europa.

Por aqui, tudo dava errado. A começar pelo álcool gel vagabundo que melava a mão, causando irritação geral.

Vieram as máscaras, primeiro brancas e depois de caveira, de Mickey Mouse, de Hello Kit, de bolinha, de florzinha, de rendinha. Do nariz, passaram para o queixo e ali ficaram.

O presidente saia às ruas armado de Reuquinol que, segundo ele, era bom até pra ema. O primeiro morto pela Covid assustou, mas depois, a população foi se acostumando com a média de mil mortos por dia, achando que no dia em que o Alan Severiano anunciava no Jornal Nacional, 600 mortos nas últimas 24 horas, era um número baixo.

Faltou leito, faltou respirador, faltou médico, faltou ministro da Saúde e faltou vergonha na cara. Ele não comprou vacina e agora estamos sem vacina. Demoliram os hospitais de campanha e agora pacientes não têm nem onde cair morto. Por enquanto, nada está dando certo neste país abaixo do Equador.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

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