O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes (Foto: Isac Nóbrega/PR)
O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes (Foto: Isac Nóbrega/PR)
Nos dois casos, os líderes de governo, empurrados por partidos e movimentos sociais de massa, ampliaram o papel do Estado na recuperação e gestão da economia e na proteção social. Os dogmas do liberalismo econômico – é melhor cada um por si – caíram por terra, enquanto o totalitarismo fascista, a social-democracia e o planejamento soviético disputavam guerras, corações e mentes pelo mundo.
O fim da Segunda Guerra Mundial foi seguido pela Guerra Fria. A ofensiva dos sindicatos e a ameaça comunista forçou as elites conservadoras a engolirem novas instituições que distribuíram renda e riqueza em larga escala.
No Ocidente desenvolvido, os ricos foram taxados em mais de 60% da renda (mais de 80% nos EUA e Inglaterra) entre 1932 e 1980, para financiar bens e serviços públicos para cidadãos que tinham agora não apenas direitos políticos plenos, mas também direitos sociais generosos: aposentadoria, seguro-desemprego, educação e saúde públicas em muitos casos, além de salário mínimo, descanso semanal e férias remunerados.
Países pobres, como o Brasil, foram autorizados a usar uma bateria de instrumentos heterodoxos para se industrializar, experimentando uma série de políticas que a China comunista imitaria a partir da década de 1980.
Isto tudo sofreu ataque brutal depois de uma nova crise global ocorrida entre 1979 e 1982, depois do Segundo Choque do Petróleo e da defesa do papel do dólar como moeda global com taxas de juros estratosféricas. O ataque à social-democracia e ao nacionalismo econômico ficou conhecido como neoliberalismo, um termo cunhado pelos próprios intelectuais neoliberais nos anos 1940 e 1950.
Milton Friedman, um dos expoentes do movimento político e ideológico desde a Universidade de Chicago e o principal inspirador de Ronald Reagan (Hayek era o de Margaret Thatcher), preparava-se para aproveitar uma crise séria há anos.
Já usara o Chile como laboratório neoliberal durante a ditadura de Pinochet, e escreveu em 1982 que “apenas uma crise – real ou percebida – produz mudança real. Quando a crise ocorre, as ações tomadas dependem das ideias que estejam circulando. Esta é, acredito, nossa função básica: desenvolver alternativas às políticas vigentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável”.
Lembre-se que nosso ministro Paulo Guedes formou-se em Chicago e empregou-se no Chile com base nas redes neoliberais universitárias. Não surpreende que tenha afirmado que temos que aproveitar a crise do coronavírus para “crescer”, ou seja, para aprovar mais reformas neoliberais que não trazem crescimento desde 2015 e que são culpadas pelo “pibinho” de 2019.
A primeira reação de Donald Trump à crise do coronavírus foi a mesma de sempre: propor a desoneração das contribuições à aposentadoria na folha de pagamentos. Ideia que serviria para provocar uma crise financeira na Previdência Social e que é um mantra neoliberal desde a experiência chilena. George W. Bush já havia tentado isso sem sucesso em 2005, e Trump fracassou de novo.
A ofensiva do movimento Occupy e de sua maior expressão política, o senador Bernie Sanders, transformou o Partido Democrata, que daria uma surra eleitoral em Trump se ele repetisse o que o próprio Bush e depois Barack Obama fizeram em 2008 e 2009: salvar os bancos e colocar na rua quem atrasava a hipoteca.
Semana passada foi Nancy Pelosi. A Democrata californiana, que é presidente da Câmara de Deputados, aproveitou a crise para aprovar uma ideia antiga do partido: licença-saúde, pois os americanos ainda perdem salários se ficarem doentes em casa. Trump resistiu acusando-a de oportunismo para aprovar uma agenda de mais de 30 anos, porém acabou cedendo para evitar uma perda de popularidade ainda maior.
Na terça-feira 17, contudo, Trump trucou e comprou a ideia-força de um dos candidatos Democratas à Presidência que ficou pelo meio do caminho, o empresário Andrew Yang: renda básica universal bancada pelo Estado. Ainda que temporariamente, o Partido Republicano vai propor a emissão de cheques para cada cidadão americano como forma de mitigar o colapso do gasto privado.
Na quarta 18, Trump imitou até o valor proposto pelo senador Sanders um dia antes: 2 mil dólares. Ou cerca de R$4.140,00 (em paridade de poder de compra), mais de 20 vezes o valor proposto no “voucher” do governo brasileiro para trabalhadores informais.
A crise é grave demais para brincar de neoliberalismo. O G-7, clube dos sete país ocidentais ricos, se comprometeu a fazer “o que for necessário” para que o PIB não despenque, o que significa compensar a queda do “PIB privado” com gasto público.
Como nem a cobrança de juros negativos pelo Banco Central animam a economia, a União Europeia já promete 10% do PIB para combater a crise. Na Espanha, o governo socialista nacionalizou hospitais, mas na França e na Itália governos centristas já propõem estatizar mais ainda, inclusive o pagamento de alugueis.
Enquanto a crise do coronavírus vai criar um novo “normal” no capitalismo global, no Brasil o “PIB privado” vai perder o bonde alguns anos. O governo Bolsonaro vai repetir as ideias de sempre, o que vai colocar nosso país na liga dos que mais sofrerão a recessão global e que mais demorarão para se recuperar dela.
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