CPI da Covid vai impedir que a tragédia se repita

O alvoroço de Bolsonaro para barrar a CPI já é, por si só, um bom GPS para localizarmos a origem da tragédia sanitária que o País atravessa

Parentes choram durante o funeral da vítima da Covid-19. Foto: Michael DANTAS / AFP

Parentes choram durante o funeral da vítima da Covid-19. Foto: Michael DANTAS / AFP

Opinião

O País acompanhou estarrecido a sucessão de manobras tentadas pelo governo Bolsonaro para obstruir a CPI da Covid, definitivamente derrotadas na última quarta-feira 14, em decisão tomada pelo Supremo Tribunal Federal por 10 votos a um.

 

 

O fato de que parlamentares precisem recorrer ao STF para fazer valer a legislação e instalar uma CPI já diz muito dos tempos que estamos vivendo.

Quem não deve não teme. O alvoroço de Bolsonaro e sua trupe para barrar a CPI já é, por si só, um bom GPS para localizarmos a origem da tragédia sanitária que o País atravessa — e onde se entrincheiram os aliados do coronavírus.

A negligência do governo federal com a vida do povo brasileiro durante a pandemia é óbvia. Mas será por meio da CPI da Covid que o Senado irá identificar cada ato e cada omissão que nos trouxeram até este caos.

A CPI é também o meio pelo qual serão identificados os responsáveis por esses fatos, onde serão apontadas as punições e propostas as iniciativas legislativas para que tamanha calamidade não volte a se repetir.

É obrigação do Senado investigar. E é obrigação do governo saber que seus atos não acontecem num vácuo, que o Brasil não é vale-tudo e que de governantes se exige responsabilidade.

Em outros tempos, talvez dar esse recado fosse desnecessário. No Brasil de hoje, ele é incontornável. Não há como obrigar o presidente a ter empatia, mas podemos e devemos garantir que eventuais crimes não caiam na impunidade.

O negacionismo que pautou a condução do governo federal no enfrentamento à pandemia matou pessoas. A destinação irregular de recursos federais e o desleixo com a aquisição de medicamentos, oxigênio e vacinas também.
Apurar essas responsabilidades é dever constitucional do Senado. Não cabe à Casa, no exíguo prazo de 90 dias, investigar as 27 Unidades da Federação e os 5570 municípios do País — a “CPI ampliada” é para quem não quer investigação, mas sim instalar uma barraquinha de denúncias pontuais que sirvam de fogo de barragem contra a apuração do quadro geral.

Se pesam fatos contra prefeitos e governadores, cabem às casas legislativas de estados e municípios investigar. Eventualmente, condutas irregulares verificadas em âmbito local chegarão à CPI do Senado.

Como sempre, as investigações dessa CPI vão precisar contar com o apoio da imprensa séria e comprometida com a verdade que ainda temos no Brasil. Esses veículos e, principalmente, seus jornalistas, são os grandes aliados da cidadania contra a indústria da farsa eletrônica que o obscurantismo quer converter em principal fonte de “informação” da nossa população.

É com muita alegria, portanto que estreio essa coluna quinzenal na CartaCapital. É uma honra frequentar as páginas onde tantos profissionais da imprensa e colunistas tiveram a coragem de desafiar e denunciar a sucessão de armações e golpes que nos trouxeram ao pandemônio político e econômico atual.

Sei da responsabilidade que é escrever na revista que é um símbolo de credibilidade—e isso é sempre muito em jornalismo, mas é uma imensidão em tempos de fake news.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É senador pelo PT do Rio Grande do Norte.

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