Chico Whitaker

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É arquiteto e ativista social, foi vereador em São Paulo pelo PT, secretário executivo da Comissão Brasileira Justiça e Paz, cofundador do Fórum Social Mundial, membro da Coalizão por um Brasil Livre de Usinas Nucleares, Premio Nobel Alternativo de 2006.

Opinião

Covid-19 e mortes evitáveis: qual o poder dos “sem poder?“

Chico Whitaker: É estarrecedor que talvez a metade das mortes tenha sido provocada pelo próprio governo, intencionalmente ou não

Foto: Alex Pazuello/Semcom Foto: Alex Pazuello/Semcom
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Somos muito no Brasil a nos consternamos com as 100 mil mortes de brasileiras e brasileiros em decorrência da Covid-19, o que coloca nosso pais entre os mais por ela atingidos no mundo. Surgem com isso muitos artigos e declarações tentando acordar quem esteja num sono letárgico e passe a reagir à aceitação silenciosa dessa tragédia, ou seja, à “normalização” desse fato. Mas ”la nave va” como diria Fellini, enquanto os entendidos no assunto nos dizem que o número de mortos dobrará nos próximos meses.

O que é estarrecedor é que talvez a metade dessas mortes tenha sido provocada pelo próprio governo, intencionalmente ou não – isto o decidirão um dia os Tribunais Internacionais ou a História – com seu Ministério da Saúde desarticulado e um Presidente da República repetindo ele mesmo, pessoalmente, atos e palavras que confundem a população sobre o modo de enfrentar a doença. Ou seja, a metade das mortes ocorridas ou a ocorrer seriam evitáveis se quem preside o país não fosse tão perverso.

 

Mas cresce por isso o número de consternados que estão finalmente começando também a se indignar com esse personagem que procura induzir nosso povo – especialmente os mais pobres, que são outra triste maioria – a aceitar com naturalidade que “todos um dia vamos morrer”… Ao mesmo tempo em que vai se firmando o único remédio para a aflitiva situação a que fomos empurrados: afastá-lo do poder – Fora Bolsonaro – e com ele todos os que irresponsavelmente o auxiliam em sua obra macabra.

Nessa tendência se situa a petição lançada pelo CEBI – Centro de Estudos Bíblicos, com o mesmo título deste artigo, há pouco mais de uma semana, na plataforma Change ( https://www.change.org/Maia-queremos-impeachment-já ).

Com o título “100.000 mortos? Estamos consternados e indignados!”, ela está dirigida a outro personagem que está também merecendo uma crescente indignação: o Presidente da Câmara dos Deputados. Nas gavetas de sua mesa há mais de 50 pedidos de impeachment do Presidente da República, assinados pelos mais diversos setores, de juristas a movimentos sociais, a que ele não dá seguimento.

Essa ação de pressão política sobre o Parlamento está ao nosso alcance, enquanto cidadãos e cidadãs “sem poder” – já que aqueles que o têm, ou almejam tê-lo, estão mergulhados nos cálculos eleitorais das próximas eleições municipais. Ou, pior, estão se articulando somente para as eleições presidenciais de 2022, como se fosse “natural” que, enquanto isso, muitos de nós possamos morrer pela ação ou omissão de um governo que, se pensarmos só em 2022, durará até essa data.

A expressão “sem poder” foi cunhada por Vaclav Havel, um dramaturgo checoslovaco que entrou na política na chamada “Primavera de Praga” – um processo iniciado no seu país por dirigentes comunistas “reformistas”e militantes de seu partido “dissidentes” ou “não conformistas”, visando descentralizar a economia do país, assegurar mais direitos aos cidadãos e cidadãs assim como liberdade de imprensa, de expressão e de organização – para construir um “socialismo com rosto humano” como o que ainda hoje sonham muitos de nós. Mas essas reformas foram interrompidas com a invasão da Checoslováquia por tanques e soldados soviéticos.

Era o ano de 1968, marcado por protestos da juventude em todo o mundo contra regimes autoritários e contra diferentes tipos de opressão, com manifestações famosas como as de maio na França. Eles ocorreram também no Brasil, com manifestações estudantis contra a ditadura militar. Aqui, a resposta do poder instalado veio em dezembro, com o AI 5 de triste memória, sem a ajuda de tanques norte-americanos.

A invasão soviética da Checoslováquia encerrou a “Primavera”, mas foi impedida de massacrar os “dissidentes” – como ocorrera na Hungria 12 anos antes – exatamente porque muitíssimos cidadãos e cidadãs “sem poder” resistiram de forma não violenta, desacorçoando os invasores. Entre suas ações auto-organizadas, houve desde as artesanais mas de muita gente – como por exemplo as dos que, comunicando-se por rádio amadores, invertiam as placas nas estradas para que os tanques fossem levados a errar o caminho para Praga e voltassem para Moscou. E entre as mais massivas, uma greve geral combinada com a divulgação de um decálogo da não cooperação com os invasores: não sei, não conheço, não direi, não tenho, não sei fazer, não darei, não posso, não irei, não ensinarei, não farei!

Infelizmente nada disso impediu que a ameaça da força bruta se impusesse, nem mesmo o suicídio do jovem Jan Palach, que se imolou com fogo numa praça para protestar contra o fim das liberdades que estavam sendo conquistadas. Mas Havel e os outros “dissidentes” continuaram lutando. E em 1977 ele escreveu o Manifesto 77, com outros intelectuais com os quais amargou, por isso, cinco anos de prisão. Sua luta foi vitoriosa somente em 1989, no mesmo ano em que caia o Muro de Berlim. E eleições gerais levaram Dubcek – o Presidente “reformista” obrigado a renunciar em 1968 – a presidir o Parlamento e Havel a presidir o país.

Logo depois do manifesto, em outubro de 78, Havel escrevera outro texto: “O poder dos sem poder”, com o que aprendera nas lutas não violentas durante e depois da “Primavera”. Era um texto de esperança, que mobilizou os ativistas de seu pais e de outros países, como os que criaram na Polônia em 1980 o Sindicato Solidariedade.

Poderemos nós também ser mobilizados, ao descobrirmos que é só aparente a impotência dos “sem poder”? Seremos capazes de conseguir, por meios artesanais e outros, que milhões de brasileiros assinem a petição lançada pelo CEBI e ela surta efeito?

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