Coronavírus deixará rastro de miséria no Brasil de Bolsonaro

O País teve muito tempo para se preparar para a chegada do coronavírus, desde que a infecção começou na China

Foto: Sergio Lima/AFP

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Opinião

Amigos, escrevo de uma Espanha confinada, com mais de 2 mil mortos por coronavírus e mais de 33 mil infectados. Estava grávida e, como toda minha família mora aqui, vim ter meu bebê na minha terra e passar a licença-maternidade. Meu filho, o pequeno Mateo, nasceu em 16 de março, em meio a uma pandemia, num país confinado e num hospital público completamente colapsado. Prova cabal de que o amor vence, a vida vence… e o SUS também.

As dores, as desgraças e as mortes do coronavírus nos têm trazido algumas lições que deveríamos ter aprendido há muito tempo, mas agora elas se impõem de maneira cruel. Às vezes, a sociedade aprende a um ritmo tão desesperadoramente lento que só à base de punhaladas parece acordar de seu ensimesmamento. Talvez a mais importante dessas lições é que sem o Estado não há vida, literalmente.

Lembram-se daquele comercial: “Agro é pop, agro é tudo”? Pois o nosso mantra deveria ser: “SUS é pop, SUS é tudo”. Sem serviços públicos, sem saúde pública, sem servidores públicos, sem gestores públicos que organizem, administrem e cuidem de nós, a morte está mais do que garantida. No decorrer dos dias e ao redor do mundo, tem sido o Estado, a máquina pública, o único ente capaz de pensar em estratégias de com- bate ao vírus e fornecer um mínimo de dignidade aos cidadãos. Nestes momentos, a privatização e a filosofia do Estado mínimo, matam. Literalmente. Não há metáforas aqui. A morte é muito real. E, quando a morte é real, não dá para falar com simbolismos ou meias palavras, devem ser palavras rotundas.

Outra lição é que os idiotas no poder também matam. Os idiotas com tendências fascistoides ainda mais. O Brasil teve muito tempo para se preparar para a chegada do coronavírus, desde que a infecção começou na China e chegou com força à Europa. Mas o idiota no poder, em vez de gerenciar uma crise que logo mais iria alcançar o País e agir com um mínimo de senso de responsabilidade, protegendo aqueles a quem governa, agiu como um completo imbecil, mas não como um imbecil inofensivo ou inócuo, mas um facínora.

Eu realmente acho que o número de neurônios de uma bactéria é maior do que o deste sujeito. Colocou em risco a saúde até dos seus amados “cidadãos de bem”, que tanto diz proteger, quando os convocou para as manifestações e saiu no meio deles a dar abraços e apertar mãos, sem nenhuma medida de proteção em relação à saúde dos manifestantes. Ao chegar nesse ponto, não resta o mínimo de dúvida, quem ainda apoia a atuação de Bolsonaro diante da pandemia é cúmplice das mortes que virão. E podem ter certeza, serão muitas.

Dois dias atrás li um post no Facebook de um branco de classe média que dizia o seguinte: “O vírus é democrático, mata pobres e ricos”. Pois então vamo repensar a frase do cidadão. A Covid-19 mata de muitas formas. Mata diretamente e mata indiretamente, aliada a um dos seus melhores e mais fiéis correligionários, o neoliberalismo.

Não, a Covid-19 não mata na mesma proporção o sujeito de classe média que correu ao supermercado e que fica em casa de quarentena no sofá, com comida e Netflix, e o pobre que não teve para onde correr e para quem ficar em casa com uma geladeira vazia e sem direitos trabalhistas pode significar a morte.

Não, para alguns a morte está fora de casa, para outros está fora e dentro. A pandemia passará, mas o rastro de miséria, desemprego, desigualdade e pobreza que vai deixar no país de Paulo Guedes será outra tragédia. Em vez de pensar em medidas para estancar a sangria que virá em termos econômicos, Guedes enxerga uma oportunidade de ouro para impor uma necropolítica capitalista que mata mais do que várias pandemias juntas.

No Brasil, tivemos vários momentos ao longo destes últimos anos para repensar a nossa relação com a política, com o Estado e com a cidadania. Tivemos vários momentos de escolha e a maioria optou pelo caminho da destruição política, uma destruição que agora vira morte. Este será um momento de decisões e escolhas, um dos mais graves.

O coronavírus e a atroz gestão da crise trarão desolação e morte. Se a gente não conseguir repensar o modelo de Estado, o modelo público, o modelo de nossas relações sociais, se a gente não conseguir reagir com a contundência necessária aos idiotas no poder, não poderemos simplesmente dizer “a Covid-19 mata”. Matará diante dos nossos olhos, sem a nossa reação.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

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