‘Corajosos’ leões bolsonaristas são gatinhos na CPI

CPI tem mostrado que bolsonarismo, além de negacionista, é covarde

O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Opinião,Política

O que dá força moral a uma posição política é a sua reafirmação em um contexto no qual ela pode soar como um constrangimento. “E daí?”, respondeu Jair Bolsonaro, ainda em abril de 2020, ao ser informado sobre o novo recorde diário de 474 vidas ceifadas pela Covid-19. Cerca de um ano depois, as mortes diárias seriam multiplicadas por dez. A cada pilha de cadáveres, Bolsonaro deixa mais evidente a aposta na imunidade de rebanho, forma contratual por meio da qual foi selada a parceria entre o governo e o vírus.

Seus sabujos, porém, parecem não ter a mesma disposição diante da tarefa de defender suas posições publicamente. É o que o se percebe dos depoimentos na CPI da Covid, onde integrantes do alto escalão do bolsonarismo, ao serem confrontados com seus próprios dizeres e ações, escolheram seguir outra orientação do manual tático bolsonarista: a da mentira desavergonhada.

Fábio Wajngarten, ex-titular da Secretaria Especial de Comunicação, negou ter chamado o ex-ministro Pazuello de incompetente, apesar dessa declaração constar em entrevista à Veja. De pronto, a revista liberou o áudio da entrevista ao público, mostrando que, sim, Pazuello fora com todas as letras chamado de incompetente por Wajngarten, que também abriu mão de reconhecer a paternidade das campanhas negacionistas e contrárias ao isolamento social que a SECOM encabeçou sob sua gestão. Quase que sai preso.

Ernesto Araújo, ex-ministro das Relações Exteriores, foi outro que tentou reescrever o que disse e o que fez. Na CPI, negou as sucessivas ofensas e provocações que fez à China, principal parceiro comercial do Brasil e também nosso principal fornecedor de insumos e vacinas. Como todo seguidor do astrólogo Olavo de Carvalho, Araújo é fanfarrão e lunático – mas só nas redes e nos círculos bolsonaristas. Diante dos senadores, gaguejou e encolheu-se. A contundente intervenção da senadora Kátia Abreu, destaque da sessão, gerou uma profusão de memes; Abreu teria visualizado em Araújo uma mata nativa pronta para ser devastada pelo agronegócio.

Antonio Barra Torres, diretor-presidente da ANVISA, também criticou Jair Bolsonaro tanto pelas declarações questionando a eficácia das vacinas como pelas aglomerações que promoveu. Em 15 de março de 2020, o mesmo Barra Torres aparecera sem máscara ao lado do presidente em uma dessas aglomerações. À CPI, se disse arrependido, somando-se a Wajngarten e Araújo no time de bolsonaristas que só defendem suas posições quando entre mugidos.

O depoimento do ex-ministro Pazuello não poderia ter sido diferente, mentindo e minimizando os boicotes públicos que o ex-capitão fez às vacinas. A famosa frase “um manda, outro obedece” teria se originado não da sua relação de vassalagem com o mandatário, mas da internet. Pazuello ainda renegou o negacionismo orgulhosamente exposto pelo chefe, afirmando que o Ministério da Saúde jamais incentivou o uso de cloroquina. A mentirada se completou com a declaração de que seria favorável ao uso de máscaras e às medidas de isolamento social.

Se a mentira tem pernas curtas, as inverdades de Pazuello se arrastam.

Poucos dias depois do seu depoimento, o general subiu no palanque em um ato público ao lado de Bolsonaro. Sem máscara. No final de abril, foi visto entrando em um shopping em Manaus. Também sem máscara. Por incrível que possa parecer, mentiras ainda mais cabeludas foram ditas à CPI: Pazuello afirmou que o aplicativo TrateCov, que receitava cloroquina até para unha encravada, fora hackeado, além de se tratar de um protótipo. Seu lançamento oficial, no entanto, chegou a ser transmitido pela Tv Brasil.

O presidente Jair Bolsonaro, em ato no Rio de Janeiro, junto ao ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Foto: Reprodução/CNN Brasil

A cartilha de recuos e mentiras foi seguida por Mayra Pinheiro, Secretária de Gestão do Trabalho e Educação do Ministério da Saúde, também conhecida como Capitã Cloroquina. Pinheiro, que defende curandeirismos como o uso do remédio para o tratamento da Covid-19, disse se incomodar com a alcunha. Dado o entusiasmo com que o defende, deveria se orgulhar. O uso excessivo de linguagem técnica não foi suficiente para mascarar o fato de que Pinheiro é uma fundamentalista da imunidade de rebanho e inveterada defensora da disseminação do vírus. Por causa dessa posição oficial, novas cepas vêm surgindo e já beiramos ao meio milhão de mortos.

A CPI da Covid vem consolidando ao menos duas obviedades. A primeira é a de que o governo Bolsonaro é o maior e mais inconteste aliado do vírus, sabotando vacinas, apostando na imunidade de rebanho, destilando negacionismos, ocasionando aglomerações e desestimulando medidas comprovadamente eficazes contra sua disseminação, como o isolamento social e o uso de máscara.

A segunda é a de que a covardia é um traço indissociável dos adeptos convictos do neofascismo do ex-capitão, incapazes de reafirmar suas posições quando estão fora das alcovas e currais bolsonaristas.

A altivez de quem saiu às ruas no dia 29 de maio, mais do que contrastar com a absoluta pequenez do bando bolsonarista, expande a luta pela vida para além dos ringues da institucionalidade, podendo influenciar, inclusive, nos rumos e resultados da CPI. A greve dos entregadores de aplicativos e o ato das torcidas organizadas em 2020, somados a esta última manifestação, mostram como a ampla mobilização popular segue sendo a melhor vacina contra a genocida política de Bolsonaro, cuja derrubada imediata ainda é a melhor e mais eficaz política de saúde pública ao nosso alcance.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Advogado, mestre em direito constitucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte

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