Contra Bolsonaro e sua pequenez, a obra de Chico Buarque sobreviverá

Bolsonaro pensa no governo e, por extensão, no próprio Estado brasileiro, como parte de sua família, e nesta família quem manda é ele

Cantor e compositor Chico Buarque. (Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Arquivo/Agência Brasil)

Cantor e compositor Chico Buarque. (Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Arquivo/Agência Brasil)

Opinião

O Prêmio Camões é um dos mais prestigiados em língua portuguesa e anualmente concede 100 mil euros a expoentes literários lusófonos pelo conjunto de sua obra. Já foram premiados: Raquel de Queiroz, Saramago, João Ubaldo Ribeiro, Mia Couto, Dalton Trevisan, entre outros gigantes. É praticamente o Nobel de Literatura da língua portuguesa.

Esta é uma premiação conjunta entre Portugal e Brasil e, antes de tudo, é uma política de Estado que desde 1989 promove a lusofonia.

Neste ano, o ganhador do Camões foi Chico Buarque, um artista brasileiro que dispensa apresentações: cantor, compositor, dramaturgo, poeta e romancista. Durante décadas de carreira, enfrentou a ditadura e compôs um dos mais memoráveis repertórios da MPB. Goste você ou não, Chico Buarque é um dos grandes artistas brasileiros e receber o Prêmio Camões é uma bela homenagem ao seu brilhantismo, sua versatilidade e sua biografia.

No entanto, há uma pedra no caminho, no caminho há uma pedra: Jair Bolsonaro.

Por ser um prêmio conjunto entre Brasil e Portugal, o diploma de premiação precisa ser assinado pelos representantes dos dois países. Só que Chico Buarque é um ácido crítico deste mesmo presidente que tem de assinar o documento que premia seu crítico.

Já temos tido claras evidências de que Bolsonaro tem uma mentalidade patrimonialista e que não sabe distinguir entre governo e Estado, nem entre sua família e governo; a insistência no nome de seu filho para o cargo de embaixador é uma delas. Nepotismo? Chama de corrupto, porra!

Bolsonaro pensa no governo e, por extensão, no próprio Estado brasileiro, como parte de sua família, e nesta família quem manda é ele.

Um governante que soubesse fazer esta distinção, mesmo sob críticas de artistas, intelectuais e da imprensa, teria a nobreza e o senso cívico de assinar o diploma premiando mesmo quem o critica, mesmo que a mão tremesse, mesmo a contragosto, mas isto exigiria integridade e respeito às normas republicanas, algo que o Bolsonaro jamais demonstrou. “O Estado sou eu” é uma frase atribuída ao monarca absolutista Luís XIV. Certamente este rei francês também não assinaria um diploma premiando seus desafetos.

“Até 31 de dezembro de 2026 eu assino” foi a resposta de Bolsonaro, arrogantemente já supondo que pode vir a se reeleger.

O caso Chico Buarque não revela apenas o patrimonialismo bolsonarista, mas também apresenta mais um indício das suas constantes investidas contra os artistas e a produção cultural brasileira, principalmente quando possui um viés progressista. Assim como “nos áureos tempos do regime militar”, que Bolsonaro tanto admira e tenta emular, a Arte deve ser um espaço de defesa dos valores tradicionais, sabe-se lá quais sejam tais valores. É o falso moralismo em sua mais pura expressão. Para a cabeça retrógrada do presidente, um artista que ouse retratar um mundo diverso, com suas contradições, é imoral, mas até mais do que isto, é um risco à estabilidade social. E, claramente, mais uma vez sob a ótica patrimonialista do Bolsonaro, de “O Estado sou eu”, ele não pode permitir isto.

Então, partindo de um exemplo bastante inusitado, o Prêmio Camões, temos novamente a demonstração da pequenez moral e intelectual do atual governante. Comprando picuinhas desnecessárias, criando crises absurdas e mais uma vez expondo para os brasileiros e para o mundo o tremendo erro histórico que cometemos como nação. Ignoramos estas forças que foram fermentadas nas profundezas da sociedade brasileira e agora somos obrigados a lidar com as consequências disto.

Mas algo me reconforta: a obra da Chico resistirá e sobreviverá, como já resistiu e sobreviveu, o atraso. E a Arte, enfim, prevalecerá.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Henry Bugalho é curitibano, formado em Filosofia pela UFPR e especialista em Literatura e História. Com um estilo de vida nômade, já morou em Nova York, Buenos Aires, Perúgia, Madri, Lisboa, Manchester e Alicante. Por dois anos, viajou com sua família e cachorrinha pela Europa, morando cada mês numa cidade diferente. Autor de romances, contos, novelas, guias de viagem e um livro de fotografia. Foi editor da Revista SAMIZDAT, que, ao longo de seus 10 anos, revelou grandes talentos literários brasileiros. Desde 2015 apresenta um canal no Youtube, no qual fala de Filosofia, Literatura, Política e assuntos contemporâneos.

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