Vladimir Safatle

Filósofo, psicanalista, professor da USP, músico e ativista

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Como se nada estivesse a acontecer

Presos às suas nostalgias desenvolvimentistas, os setores hegemônicos da esquerda brasileira não conseguem politizar as associações entre crescimento e devastação

Como se nada estivesse a acontecer
Como se nada estivesse a acontecer
O chefe dos serviços de previsão climática da Organização Meteorológica Mundial, Wilfran Moufouma-Okia, em 1º de junho de 2026. (Foto Fabrice Coffrini/AFP)
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Eleições 2026

O processo eleitoral brasileiro se inicia com uma ausência cada dia mais inexplicável. Ausência sentida não apenas na campanha presidencial, mas nas campanhas estaduais e legislativas. Enquanto a Europa queima e milhares de pessoas morrem devido à incapacidade de suportar as novas médias de calor, a discussão sobre a crise ecológica simplesmente inexiste em nossa pauta eleitoral. De todos os descolamentos da política atual em relação às necessidades concretas das pessoas, essa talvez seja a mais irracional e dramática. Ela parece referendar a capacidade nacional de ser, ao mesmo tempo, a maior fronteira de devastação ecológica do planeta (o Brasil perdeu mais de 2 milhões de km² de vegetação nativa nas últimas cinco décadas) e o lugar onde, a julgar pelos debates eleitorais, temos coisas mais importantes para fazer do que nos preocuparmos com enchentes, queimadas, secas, catástrofes ambientais, migrações climáticas e destruição das condições mais elementares de preservação de nossas vidas.

Já entendemos que nossa eleição será pautada pela gestão do medo. Quem votará na continuidade desse governo entende que a volta da família Bolsonaro ao poder significará a ressubordinação completa do Brasil ao horizonte imperial norte-americano, assim como a naturalização da decomposição social que vemos a passos largos ocorrer em nossa vizinhança. A imprensa nacional é suficientemente delirante para fazer, por exemplo, de Javier Milei um case de sucesso. Estamos a falar do presidente de um país onde atualmente 44,2% da população vive de trabalho informal, o consumo interno está em contração e sua população come carne de burro, mesmo sendo um dos maiores exportadores de carne bovina do mundo. Ou seja, todo mundo consegue imaginar o pacto de silenciamento que se formará em torno da aplicação da mesma política entre nós. Lembro disso para insistir que é o medo real do que significa o fascismo nacional descomplexado e conectado com o movimento geral da região que mobiliza nosso voto. Não é o entusiasmo, mas o medo.

Mas mesmo se assim for, só a dificuldade histórica da esquerda brasileira em integrar a centralidade da crise ecológica em sua agenda pode explicar sua ausência em nossas preocupações eleitorais. Presos às suas nostalgias desenvolvimentistas, os setores hegemônicos da esquerda brasileira não conseguem politizar as associações entre crescimento e devastação, progresso e catástrofe, cada dia mais explícitas. Isto é ainda mais dramático porque a politização da crise ecológica poderia ocorrer exatamente no momento em que o Brasil terá que enfrentar fenômenos climáticos extremos provocados por um super El Niño.

Em situação sensivelmente menos catastrófica, fomos obrigados a ver, por exemplo, o estado do Rio Grande do Sul cair por água abaixo em 2024. Para termos uma ideia das previsões a longo prazo, projeções da i4sea indicam aumento de 6 para 127 dias ao ano de calor extremo até 2075.  Já para os próximos cinco anos, a ONU prevê crescimento de 1,5 graus na média da temperatura global. Isso significa uma degradação radical do que significa nossa vida cotidiana, um aumento exponencial do sofrimento em suas mais variadas formas.

No entanto, vivemos em um momento no qual opera algo que poderíamos chamar de “lógica da contra-gestão”. Tudo se passa como se não fosse possível fazer nada contra as crises que marcam a nossa época, a começar pela crise ecológica. Ou seja, a lógica é naturalizar tais crises, continuar a fazer tudo como sempre foi feito, fazer mudanças paliativas cujo efeito é praticamente nulo e acostumar a sociedade a um cenário distópico. A extrema-direita opera nessa dinâmica contra-gestionária, pois agir de forma efetiva exigiria colocar em questão o modelo de produção que gerou tudo isso. No entanto, diante do que nos espera, ficará cada vez mais difícil falar que nada há a mudar.

Esse governo teve o mérito de conseguir reduzir em 42% o desmatamento de florestas tropicais. Isso não é pouco, levando em conta a aceleração da devastação ecológica produzida na época do governo Bolsonaro. Mas o Brasil carece de uma política de emergência ecológica, de uma preparação contra catástrofes e, principalmente, de uma politização das causas da crise ecológica que marca nossa época.

Nesse sentido, o mínimo a dizer é que fica difícil fazer tal politização quando se aloca 601 bilhões de reais para financiar o agronegócio via Plano Safra. Uma escolha preferencial que desafia toda racionalidade, até mesmo a eleitoral. Pois a área orgânica do agronegócio (interior de São Paulo, Triângulo Mineiro, Mato Grosso, Sudeste goiano) hoje compõe o núcleo duro do bolsonarismo. Isso não acontece por alguma tendência milenar dessas populações ao conservadorismo. Várias das principais cidades dessa mega-região já foram governadas por partidos de esquerda, muitas em mais de uma vez nas últimas décadas. Mas a consolidação do agronegócio produzia uma hegemonia econômica que hoje se traduz em hegemonia política e cultural. As últimas não serão quebradas sem quebrar a primeira. Quanto mais os agentes econômicos do agronegócio são preservados em seus interesses, mais suas regiões de atuação são submetidas à sua ideologia.

Um dos grandes desafios políticos das próximas décadas é transformar os limites de nossa concepção de sociedade. Sociedade não é algo composto apenas de humanos, mas de humanos, outros viventes e seus meios. Tanto é assim que, se a vida de outros viventes é ameaçada, a vida dos humanos entra em colapso. Esses outros viventes não são mercadorias em potencial, espaço a ser transformado a partir das exigências de produção de valor. Eles são partes fundamentais do que faz da sociedade algo possível. Politizar esses espaços do social é uma tarefa que pode orientar nossas ações e garantir algum futuro.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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