Luana Tolentino

[email protected]

Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. É autora do livro 'Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula' (Mazza Edições)

Opinião

Como o racismo afeta o desenvolvimento das crianças negras

Um estudo de Harvard mostra que estresse provocado pela discriminação racial pode ter um efeito significativo de desgaste no cérebro em desenvolvimento, o que prejudica a aprendizagem, o comportamento e a saúde mental e física

Créditos: istock
Créditos: istock
Apoie Siga-nos no

Era 1991. Um dia muita ansiado por mim. Deixava uma pequena escola da educação infantil e chegava à antiga 1.ª série, em um grupo escolar enorme, com muitas salas, cantina, quadras, jardim e todo um universo que a minha meninice era capaz de imaginar. Na mochila, trazia cadernos, lápis, apontador, tesoura, borracha e cola, com uma ansiedade imensa para usá-los.

Por ser o primeiro dia de aula, havia uma movimentação grande na escola. Os alunos recém-chegados e os “veteranos” buscavam nas listas afixadas na porta da secretaria o nome e a respectiva turma em que iriam estudar. Precisei fazer todo esse ritual sozinha, pois meus pais não puderam me acompanhar. Aos 7 anos, tive que dar conta das responsabilidades que esse momento de transição exigia. Eu me senti um pouco insegura, tive medo de não encontrar minha turma, mas sabia que precisava ir em frente.

Em meio ao alívio de ter descoberto minha sala e que a “tia” Nádia seria minha professora, fui assombrada pelo racismo. Durante a caminhada que me levaria ao encontro dos novos colegas, um garoto gritou: “Macaca!”. Assustada, temi que ele pudesse fazer algo além do xingamento. Enquanto sentia meu coração apertado e minhas mãos suando, ele ria, gargalhava. Sabia que ele havia usado o nome de um animal para me ofender, me humilhar, em razão da cor da minha pele, mas não entendia o motivo daquela violência tão gratuita, afinal de contas, nunca tínhamos nos visto antes.

Essa cena se repetiu por diversas vezes ao longo da minha caminhada no ensino fundamental. No médio, já não ouvia mais a palavra macaca, mas as formas de racismo eram outras. Piadinhas, risos abafados, processos de exclusão que estavam relacionados à minha cor. Tudo isso teve um custo. Um custo alto. Como bem escreveu Toni Morrison, tive a minha autoestima dilacerada. Cresci com um sentimento de inferioridade, que vez por outra me coloca em ciladas, me leva a abismos profundos.

Essa história não é só minha. Ela se repete, atravessa a vida de milhões de crianças negras e provoca sérios impactos no desenvolvimento infantil. É o que diz a cartilha produzida pelo Núcleo Ciência pela Infância (NCPI), da Universidade de Harvard.

De acordo com o material, o estresse provocado pela discriminação racial “pode ter um efeito significativo de desgaste no cérebro em desenvolvimento e em outros sistemas biológicos”, o que provoca danos na aprendizagem, no comportamento, na saúde mental e física de meninos e meninas.

Outro ponto destacado na cartilha refere-se à qualidade de vida. Segundo a pesquisa, esse grupo social é mais acometido por doenças crônicas e encontra maiores dificuldades de acessar os serviços de saúde. Quando conseguem, muitas vezes recebem tratamento desigual, de baixa qualidade. Com isso, o índice de mortalidade em decorrência de doenças cardíacas, renais e diabetes é maior entre as crianças negras.

A cartilha traz ainda uma questão pouco discutida nos debates a respeito de racismo e infância: o adoecimento dos responsáveis pelas crianças, que têm de lidar com a violência racial a que elas são submetidas. Segundo a pesquisa, “quando a saúde mental dos cuidadores é afetada, os desafios de lidar com ela podem causar uma resposta excessiva ao estresse em seus filhos”.

A partir desses dados, é possível afirmar que a discriminação racial tem negado às crianças negras o direito a uma vida plena, segura e feliz. O combate ao racismo que estrutura a sociedade e fere de morte meninas e meninos negros é uma tarefa que precisa ser assumida por todos nós. E tem que ser agora.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Luana Tolentino

Luana Tolentino
Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. É autora do livro 'Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula' (Mazza Edições)

Tags: , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor...

Apoiar o bom jornalismo nunca foi tão importante

Obrigado por ter chegado até aqui. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, que chama as coisas pelo nome. E sempre alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se este combate também é importante para você, junte-se a nós! Contribua, com o quanto que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo completo de CartaCapital.

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor...

Apoiar o bom jornalismo nunca foi tão importante

Obrigado por ter chegado até aqui. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, que chama as coisas pelo nome. E sempre alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se este combate também é importante para você, junte-se a nós! Contribua, com o quanto que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo completo de CartaCapital.