Opinião

Como o Brasil deveria olhar para a China?

Não só nossas commodities correm riscos

 (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil) O presidente da República Popular da China, Xi Jinping e o presidente Jair Bolsonaro em Brasília (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)
(Foto: Valter Campanato/Agência Brasil) O presidente da República Popular da China, Xi Jinping e o presidente Jair Bolsonaro em Brasília (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

O Brasil e a China vivem a fase de maior integração desde que reestabeleceram laços diplomáticos, há 46 anos. A tônica dessa relação deveria ser a reciprocidade. Mas, ao menos do lado brasileiro, o diálogo é pautado por incertezas e conflitos constantes, expressos principalmente pela “ala ideológica” do governo Bolsonaro e  por seu filho deputado, Eduardo – aliás, presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara.

 

Um exemplo dessa complementaridade é a venda de soja brasileira para a China, que cresceu 8% na comparação entre janeiro a novembro de 2020 e o mesmo período do ano passado. A soma chega a US$ 20,9 bilhões. Em volume, foram 10% a mais, ou 60 milhões de toneladas.

Ainda que praticamente todo o agro siga o mesmo fluxo de exportação, a chave dessa equação não é o comércio. As exportações de minério de ferro também se beneficiam com a China, onde a economia já dá sinais robustos de recuperação – e onde o coronavírus, diuturnamente combatido, está efetivamente controlado.

Qualquer reação chinesa provocaria uma debacle nas exportações brasileiras. Ainda assim, repito, o comércio não deve ser o centro das estratégias ante os chineses.

A China hoje lidera a corrida por uma vacina eficiente contra a Covid-19 e pela implantação de redes 5G da Huawei. Desta última, aliás, só outras duas empresas no mundo detém tecnologia: a finlandesa Nokia e a sueca Ericsson. Nas vacinas, há um pouco mais de fornecedores já aptos.

Na saúde e tecnologia, o Brasil tem grandes necessidades. E como um país continental, seria inteligente olharmos para a China com mais respeito e método.

Isso não inclui ordem do presidente para que seus ministros não recebam o Embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, como noticiado no final de semana, ou negociações para que o edital do 5G termine excluindo a Huawei do leilão previsto para 2021.

Na pior pandemia do século, a vacina ajuda a resolver um problema de saúde pública. A tecnologia 5G pode trazer mais agilidade e reduzir custos na implementação das redes – os resultados serão também importantes para o aumento de produtividade e da competitividade da indústria brasileira. Hoje, a Huawei é responsável por mais de 40% dos equipamentos das redes 3G e 4G no Brasil, e que são necessárias como apoio à futura 5G.

Neste cenário, não são só nossas commodities correm riscos caso o maior comprador de produtos brasileiros resolva congelar pedidos ou retaliar o Brasil. Isso talvez nem aconteça. Trata-se, no entanto, de perder a oportunidade de repensar as relações com um país em desenvolvimento, cujos feitos até aqui podem servir inclusive de inspiração para o Brasil.

A China comemorou nesta semana a erradicação da pobreza extrema, alcançando a meta de retirar 100 milhões de pessoas desta condição nos últimos anos. Esta é uma missão que o Brasil ainda precisa cumprir. O exemplo chinês, que em 40 anos retirou quase 800 milhões desta condição, poderia balizar políticas públicas por aqui.

Vacinas CoronaVac chegam da China no Aeroporto Internacional de Guarulhos em Guarulhos: (Foto: NELSON ALMEIDA/AFP) Vacinas CoronaVac chegam da China no Aeroporto Internacional de Guarulhos em Guarulhos: (Foto: NELSON ALMEIDA/AFP)

Para completar, a China é um importante investidor no Brasil, principalmente em setores como infraestrutura e energia. De 2007 a 2018, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China, os chineses investiram US$ 58 bilhões no País. Mais recentemente, em novembro, um consórcio formado pelas empresas China Communications Construction Company e China Railway 20 Bureau Group Corporation firmou contrato para construir a ponte Salvador-Itaparica por R$ 7,7 bilhões em Parceria Público-Privada – o governo da Bahia arcará com R$ 1,5 bilhão. Com 12,4 quilômetros, a ponte sobre a lâmina d’água será a maior da América Latina, superando a Rio-Niterói. A entrega está prevista para 2025.

Quando se pensa em investimento, aliás, é preciso olhar para a China como motor de nova arquitetura financeira global, capitaneada por bancos cujos projetos o país lidera, como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura e o Novo Banco de Desenvolvimento, ou Banco dos BRICS.

https://www.youtube.com/watch?v=CjJd_Oxv240

Há muitos outros bons exemplos. Para quem olha para tecnologia e economia digital, a China é a nova meca. Um Vale do Silício algo semelhante ao Brasil, com desigualdade de renda desigual e uso massivo de celulares, redes sociais e internet.

Para ligar pontos, apresentar convergências, e discutir a política, a sociedade e a economia chineses é estreia hoje esta coluna na CartaCapital. A cada 15 dias, às quartas-feiras, discutiremos aspectos fundamentais para entender a China, sempre sob a ótica da relação sino-brasileira. Vivi em Beijing de 2007 a 2013, para onde viajo com frequência a trabalho. Claro, neste ano os planos foram adiados. Mesmo daqui, as antenas estão voltadas ao universo chinês.

Conto com sua companhia neste radar.

Janaína Silveira

Janaína Silveira
Jornalista mestre em Economia. Morou na China de 2007 a 2013 e vai ao país com regularidade à trabalho. Pilota desde 2011 o Radar China, canal dedicado a interpretar a China e a relação sino-brasileira no YouTube.

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