Camilo Aggio

Professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas

Opinião

Como enfrentar as fake news

Aos presidenciáveis de 2022 e além, eu recomendaria: não gastem mais de um segundo desmentindo o que pouco importa se é mentira

Fake News. Crédito: Reprodução
Fake News. Crédito: Reprodução
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Conforme prometi na última coluna, retomo o tema do problema das fake news. Permitam-me reiniciar a discussão com uma nova ilustração e uma breve digressão.

Segundo pesquisa realizada pelo Seade, do Governo do Estado de São Paulo, e publicada no último dia 7, 84% dos responsáveis por crianças no estado de São Paulo afirmam que pretendem vacinar suas filhas e filhos contra a Covid- 19. No entanto, como diz o velho provérbio, o diabo mora nos detalhes: quando discriminado por escolaridade, esse número sobe para 92% entre os que têm até o ensino fundamental, mas cai para 77% entre os que possuem ensino superior.

Em outras palavras, o nível de escolaridade é inversamente proporcional à intenção de pais e mães em vacinarem suas crianças diante de uma pandemia que já ceifou a vida de mais de 600 mil brasileiros, dentre eles, 1.449 crianças de até 11 anos. Somos o segundo país com o maior número de crianças mortas em decorrência da Covid-19, segundo ranking do jornal Estado de S. Paulo em parceria com Leornado Bastos, estatístico da Fiocruz.

Esse resultado se soma a outras tantas evidências anedóticas e científicas que, curiosamente, ainda conduzem a diagnósticos e prescrições equivocadas sobre determinados comportamentos sociais e políticos.

Esperar que quanto maior o nível de escolaridade e treinamento formal, maior será a tendência de que os indivíduos adotem comportamentos mais bem orientados pela ciência é aderir a falsos truísmos e fantasias sociais que vendem a educação como uma panaceia para problemas concretos ou supostos, tal como a ideia de que mais educação e maior nível de escolaridade conduziriam a um voto mais racional, correto e esclarecido ou de que as pessoas depositam fé nas chamadas fake news por falta das mesmas qualificações, habilidades e atributos e, por isso, precisariam de iluminação, de “educação midiática”.

Na última coluna e em algumas outras, já tratei do viés de confirmação e da dissonância cognitiva, dois dos mecanismos que demonstram que, independentemente dos níveis de escolaridade e conhecimento, temos todos a tendência de refutar informações que colidam com nossas convicções e a abraçar aquelas que as reforçam. E por “informações”, devemos também considerar as falsas e objetivamente incorretas. Os que aderem a fake news não aderem a qualquer uma, mas selecionam aquelas que lhe são úteis, que não causam desconforto e que mantém suas convicções em paz.

Mas há outros aspectos importantes.

As fake news dizem respeito a problemas concretos e endereçam questões de concernência pública, política e eleitoral. As fake news que ganham relevância pública só o fazem porque refletem algo sobre coisas ou estados de coisas presentes em percepções e preocupações de natureza coletiva. Para ficarmos num exemplo importante e local, não é a extravagância, a inverossimilhança e a implausibilidade da mamadeira de piroca que fizeram com que essa falsa notícia se tornasse um meme, mas os receios, temores e visões de mundo que são acionados como alegoria por esse objeto. Trata-se de uma representação de algo.

Qualquer um poderia convencer alguém que tenha aderido e repassado essa história adiante de que ela era demonstrativamente inverídica, mas muito provavelmente não teria o mesmo sucesso em convencê-la de que discutir a sexualidade das crianças e o papel da escola na educação sexual era coisa menor ou irrelevante. Assim como não conseguiria dissuadi-lo de que as transformações culturais e sociais no campo da sexualidade deveriam fazer parte das agendas de preocupações dos presidenciáveis. O mesmo vale para outras fake news relacionadas a questões de diversidade, pluralidade, justiça e direitos caras ao campo das tradições nacionais.

É nesse aspecto que reside o truque político das fake news como instrumento de propaganda digital e eleitoral: ela não tem a função de, simplesmente, disseminar um rumor, uma mentira, mas de representar, pautar e, mesmo, construir um problema social. E quem é que oferece a solução? Quem a produz.

Enquanto o alvo das fake news investe suas energias e recursos na demonstração da falsidade daquela informação, crente que o problema é a crença nela, o seu produtor ou beneficiário direto discute o problema que ela enseja e se oferece como solução. Isso no campo da política. No que diz respeito ao problema em dimensões mais dilatadas, a questão ganha outros contornos de complexidade. Desse modo, eu endereço três frentes para lidar com o problema e nenhuma delas tem a ver com didatismos deterministas.

1) As fake news costumam ser produzidas por profissionais e empresas remuneradas com dinheiro público e/ou privado com o intuito de alcançar benefícios particulares em detrimento do interesse público e contra as instituições. Desse modo, não se trata de “imunizar” com a transmissão de nossas supostas sabedorias, os receptores das fake news, mas de combater suas usinas de produção. Trabalho de nossa Justiça e de nossas forças policiais.

2) Quando se trata de ontologia, quando se trata da natureza humana, eu pendo para Thomas Hobbes e me distancio de Jean Jacques Rousseau. Desculpem os leitores e leitoras de espírito participacionista e de enorme fé nas competências e virtudes humanas, mas se temos comportamentos anticientíficos que induzem a condutas que coloquem a coletividade em risco, cabe ao Estado, às autoridades competentes e, inclusive, as eleitas, a fazerem a coisa certa. Se a circulação de desinformação segue produzindo desorientações, confusões e promoções de propagandas negacionistas, cabe ao Estado produzir sanções, constrangimentos e punições que recoloquem a defesa do interesse coletivo, do bem comum, contra os caprichos solipsistas, nos trilhos do pacto civilizatório. Vejam o atual caso do Quebéc, que viu a taxa de vacinação subir mais de 300% após o passaporte vacinal ser exigido para o consumo de bebidas alcoólicas e maconha. Outras medidas fiscais são estudadas. Como disse o ministro da saúde da província canadense, Christian Dubé: “Se eles não conseguem se proteger, nós os protegeremos deles mesmos.”. Elementar.

3) Aos presidenciáveis de 2022 e além, eu recomendaria o seguinte: não gastem mais de um segundo desmentindo o que pouco importa se for mentira. Se uma fake news ganha tração pública é porque representa um problema e uma potencial agenda de debate que deve produzir efeitos eleitorais. É preciso considerar e debater a substância que a sustenta e não aquilo que a adorna.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Camilo Aggio

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