Roberto Amaral

robertoamaral@cartcapital.com.br

Cientista político, ex-ministro da Ciência e Tecnologia e ex-presidente do PSB. Autor de História do presente- conciliação, desigualdade e desafios (Editora Expressão Popular e Books Kindle)

Colunas

Com os pés no chão, celebremos a resistência iraniana

O imperialismo não logrou as façanhas que prometeu a si mesmo e anunciou ao mundo. Uma vez mais, a história registra os limites da força bruta

Com os pés no chão, celebremos a resistência iraniana
Com os pés no chão, celebremos a resistência iraniana
Donald Trump e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em um encontro na Casa Branca realizado no dia 4 de fevereiro de 2025. Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP
Apoie Siga-nos no

Aos analistas da crise internacional, a boa prudência aconselha parcimônia na projeção de seus desdobramentos, mesmo no curtíssimo prazo. A promessa de paz, ainda que a tempo medido, um pequeno armistício, uma curta suspensão das hostilidades por breves duas semanas para ensejar um mínimo de diálogo, consumou-se em poucas horas como se tudo não passasse de uma trampa. E não poderia ser diferente, pois um dos principais agentes da guerra e do cessar-fogo, o mais belicoso e o mais poderoso — os Estados Unidos da América do Norte — são um negociador de má-fé, e Israel, seu principal associado nesta guerra suja, é comandado por um criminoso de guerra com mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional, o que ameaça fazer da negociação a ser retomada uma não-negociação, um ilusionismo para acalmar o mercado global em crise e dar fôlego ao complexo industrial dos EUA, metido numa guerra muito mais custosa do que calculara a princípio (se é que houve cálculo), e as forças da ocupação israelense, que um alto comandante chegou a anunciar que estavam próximas da exaustão.

O negociador de má-fé a que me refiro não é o bilionário incorporador de Manhattan, parceiro de Jeffrey Epstein em trampolinagens heterodoxas, mas o Estado norte-americano; refiro-me ao seu sistema político-social, os EUA profundos que elegeram o atual inquilino da Casa Branca por notável maioria de votos. 

Nas negociações intermediadas pelo Paquistão, os EUA puseram à mesa uma proposta que não pretendiam levar a cabo — uma trégua mútua de duas semanas — na contrapartida de concessões humilhantes e, portanto, inaceitáveis, e só apresentadas na suposição de que seriam rejeitadas. Mesmo assim, leonina, a proposta era uma farsa, porque, enquanto falava em cessar-fogo, a Casa Branca instruía Israel — seu associado nessa sequência de arrogância militar e crimes de guerra impunes — a invadir o Líbano. As falanges sionistas, lembrando as Blitzkriegs de Hitler, realizaram, na última quarta-feira 8, 100 ataques em dez minutos, deixando o rastro de sangue de centenas de civis assassinados, algo como 300 seres humanos, mais de 130 crianças. 

Os bombardeios — o alvo é um país sem qualquer sorte de defesa — visam a destruir sua infraestrutura civil (compreendendo hospitais e escolas, estradas e indústrias) e, mais uma vez, rapinar o território, agora na fronteira sul.

Segundo The Economist, o criminoso regime sionista é apoiado por algo variante entre 70 e 75% da população. Eis a base da infâmia.

O presidente dos EUA diz que o fim dos ataques ao Líbano não havia sido cogitado nas tratativas com o Irã. Shehbaz Sharif, primeiro-ministro do Paquistão que aproximou as partes e intermediou as negociações, afirma que estavam. Não há dúvida sobre quem está mentindo.

Não obstante o quadro movediço da realidade, alguns juízos podem ser arriscados, e o primeiro deles afirma que os EUA, quaisquer que sejam seus ganhos, saem politicamente derrotados, o que é uma boa notícia para a humanidade. Nada lembra a derrota no Vietnã — indiscutível sob todos os aspectos consideráveis —, mas a resistência do governo-Estado e do povo iraniano é algo a ser celebrado.

Na sua onipotência de gendarme do mundo, que forceja por submeter aos seus interesses estratégico-militares e aos seus valores, os Estados autoritários descuidam sempre que as guerras, quaisquer, se estribam na tríade governo–forças armadas–povo e, muitas vezes, ator decisivo, acicatado pelo agressor, o povo, é levado a unir-se ao governo e ao seu exército em simples mecanismo de autodefesa, defesa de sua vida, defesa de sua gente, de suas crenças, de sua história. 

Os iranianos, que os EUA viam como potenciais adversários do regime dos aiatolás, uniram-se em sua defesa, pois essa defesa passou a confundir-se com sua própria defesa, pessoal e coletiva, a defesa da nação contra o invasor bárbaro, que prometia fazer retornar “à idade da pedra lascada” a civilização persa, um fenômeno de mais de quatro milênios.

Sem descuidar de que a guerra ao Irã, travada pelos EUA e por Israel (mesmo consideradas motivações distintas), jamais pode ser vista como uma guerra-fim, posto que o alvo do imperialismo é a contenção da China como ameaça à sua hegemonia, a Casa Branca anunciou como objetivos imediatos das operações presentes a derrubada do regime de Teerã, a ser substituído por um governo  “amigável”, com o qual, por diversas vezes, foi veiculado, já estaria dialogando. 

Nada disso se evidenciou, e o pouco do que se pode apurar do noticiário internacional que nos chega (notoriamente enviesado) é, em contrário senso, o fortalecimento, no controle do regime, das alas mais conservadoras e radicais, do clero e das forças armadas, notadamente do Comando da Guarda Revolucionária Islâmica (IRG). E será com essa nova direção, que vem à tona muito puxada pelos assassinatos seletivos de Israel, que os EUA terão de conversar, para acalmar seus aliados no Golfo e em todo o Oriente, que, como o Paquistão, repelem a guerra que destrói suas economias e desestabiliza seus regimes, em regra autocráticos.

De par com a crise imposta à ordem mundial, abalando a economia dos países com a expectativa de inflação e queda do PIB, os EUA, nesses quase dois meses de guerra, descontentaram velhos aliados políticos e militares e desestabilizaram a Otan, uma invenção da Guerra Fria. Ao cabo, mas não ainda por fim, revelaram-se aliados inconfiáveis, o que, para eles, é péssimo, seja na paz, seja na guerra. 

De outra parte, ativa, mas comedida em falas e ações, a China saiu incólume e respeitada pela sua postura cautelosa. A Rússia festeja os muitos ganhos com a alta do preço do petróleo. Ambos os países se apresentaram nos entremeios e no Conselho de Segurança da ONU como aliados do Irã, que conquistou, por quanto tempo e em quais condições daqui para a frente não se sabe, uma poderosa arma econômica: o controle da navegação pelo estreito de Ormuz, que, para Teerã, não mais se configura, tão só, como instrumento de barganha para encerrar o conflito, passando a ser elemento permanente do cenário pós-guerra. 

Ou seja, da guerra que se sucederá, sejam quais forem seus meios.

Chamado à ordem, o sionismo prometeu suspender os ataques ao Líbano, palavra que não foi honrada, sob o pretexto da guerra particular ao Hezbollah, pretexto para tudo; mas até aqui, tudo indica que terá de ir a Washington na próxima semana para o início de uma rodada de conversas com  as autoridades de Beirute.

O imperialismo não logrou as façanhas que prometeu a si mesmo e anunciou ao mundo, e, uma vez mais, a história registra os limites da força bruta. 

É justo, pois, celebrar a resistência e a vitória tática do Irã, por pequena que ainda seja, pois sua sobrevivência já é façanha notável (como a brava e dolorida resistência de Cuba), representando não apenas a si mesmo, mas a humanidade como um todo. A grande lição dos vietnamitas faz parte da história, nos campos de batalha em sua terra calcinada pelo napalm e pelos bombardeios da maior potência bélica do mundo, mas também esteve presente, viva e bela, nas ruas e nos espaços livres dos EUA daquele então, quando a defesa da vida silenciou o apelo da morte.

Sem pretender estabelecer comparações que o processo histórico não permite, devemos, deve a esquerda, mesmo aquela sem intimidade com a dialética, entender que o regime dos aiatolás, autocrata sim, teocrata sim, hoje, ajuda a humanidade a manter viva, ainda que frágil, a chama da liberdade. E os EUA, dos filmes e canções que fazem nossos corações e mentes há mais de 80 anos, cantados e decantados em prosa e verso como baluartes da democracia, são a promessa de atraso, por mais voltas que deem em torno da Lua. A vida é complexa.

O quadro que começa a se delinear não sugere a reconfiguração do poder mundial, necessária para a paz e a sobrevivência da humanidade, e muitos são os abalos sísmicos que nos aguardam. No mundo e na ordem internacional, ou seja, segundo as alterações táticas e estratégicas que darão o rumo das disputas das potências pela hegemonia, parece não mais haver espaço para sonhos como “convivência pacífica” entre ordens de poder diversas, ainda quando as diferenciações ideológicas ou de sistema sejam superficiais.

Moloch insaciável, nenhuma guerra leva à paz, qualquer que seja ela. A Segunda Guerra Mundial nasceu como butim do conflito de 1914–1918 e ensejou o rastilho das guerras por procuração que marcaram a Guerra Fria, travadas sob o guarda-chuva da polaridade nuclear dos tempos que se findaram com a autodissolução da URSS, abrindo caminho para o incontestado império planetário do capitalismo, sob a regência dos EUA, assustados com a concorrência da China na disputa pela hegemonia mundial. 

É a Guerra Fria dos tempos presentes, que dita os termos da paz e da guerra e move os cordéis das peças que se articulam mundo afora, enlaçadas como numa teia de aranha.

Nada disso nos pode ser alheio.

(Com a colaboração de Pedro Amaral)

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo