

Opinião
Cobertor despedaçado
A saúde depende de um sistema abrangente e de qualidade, dados confiáveis, cadeias de suprimentos estáveis e confiança pública
Entre a comemoração de início e recomeço da vida, e a escalada do uso da força para intimidação política, 2026 será um ano longo. Começou sob o signo das incertezas, nos remetendo às tensões bélicas globais. Mais uma vez, a Lei Orçamentária aprovada pelo Congresso impôs à saúde pública restrições e ficou patente que a soberania nacional, na América Latina, requer iniciativas muito além da ampliação do financiamento para as Forças Armadas. A escalada da força e a óbvia constatação das assimetrias dos arsenais de guerra entre os EUA e países periféricos, do denominado por Trump this is our hemisphere, interrogam o padrão de alocação de recursos públicos para a proteção e defesa da população brasileira.
Investir em tecnologias importadas caras para matar desestimula pesquisas e inovações nacionais. Priorizar políticas de segurança multiuso é essencial para a saúde, educação, agricultura, correios, comunicação, acesso de populações de áreas remotas. Em tempos duplamente sensíveis às ameaças à paz por conflitos geopolíticos e necessidades internas de combate ao crime e corrupção, tende a soar como ingenuidade, mesmice ou mesmo oportunismo sugerir a inflexão das prioridades, alegadamente nobres e sigilosas, para as Forças Armadas.
Mas as circunstâncias mudaram e, por mais que recorramos à história, a passada contemporânea tem ritmo e natureza destrutivos originais. Na mesma data em que a Venezuela foi bombardeada e seu presidente “extraído”, os EUA anunciaram a redução de 17 para 11 vacinas recomendadas para a prevenção de doenças e mortes em crianças. Trata-se de uma medida perigosa, que atinge especialmente bebês, meninos e meninas pobres. Um erro baseado no desprezo às evidências científicas. No Brasil, acertaremos com políticas de segurança para a paz e recusa à brutalidade.
Não se trata de questionar a relevância da defesa do País, de suas fronteiras, do combate ao contrabando, à biopirataria. Os desafios são exatamente aqueles relacionados com a efetiva defesa e a autodeterminação. O uso da Starlink pelo Exército e a adesão acrítica a licenciamentos e produtos tecnológicos internacionais foram avaliados, em 2025, por pesquisadores da Universidade de Brasília e da Universidade de São Paulo como gastos volumosos e insuficientes para dotar o País de contratos adequados para controlar códigos e influências das big techs. Riscos de vazamentos de dados estratégicos e uso de armas de fogo como primeiro recurso em atividades policiais integram um circuito que une subordinação à letalidade.
Gastar bilhões de reais com fornecedores estrangeiros de tecnologia e aquisição de armas, enquanto saúde, educação e centros de pesquisa operam com orçamentos apertados, compromete a autonomia tecnológica e reduz a capacidade estratégica de defesa, impedindo o fortalecimento de soluções públicas nacionais. A saúde, que concentra transformações tecnológicas aceleradas e desigualdades acumuladas e crescentes, tem muito o que dizer sobre as possibilidades de revisão do uso do fundo público. A disseminada crença de que saúde tem custos altos e deve ser objeto de cortes orçamentários não se fundamenta em experiências concretas. Populações saudáveis recorrem menos a serviços de saúde.
A redução da exposição aos riscos é uma abordagem objetiva para melhorar a saúde. Tributação, rotulagem de alimentos ultraprocessados e as batalhas pela despoluição do ar são um bom começo. Por outro lado, as despesas com saúde estão pressionadas por inovações tecnológicas de alto custo, envelhecimento, aumento da incidência e prevalência de cânceres.
É imprescindível implementar políticas de investimento em ciência, tecnologia e inovação para a garantia de medicamentos com preços acessíveis e clinicamente eficazes e saúde digital soberana. Saúde é um bem público fundamental para a segurança. O cobertor não continua apenas curto, foi rasgado. Um projeto que costure o direito de nascer, viver e morrer com dignidade com democracia e soberania alivia o fardo dos efeitos da violência, que se estendem para ambientes civis, inclusive nos supostamente civilizados.
Saúde depende de um sistema abrangente e de qualidade, dados confiáveis, cadeias de suprimentos estáveis e confiança pública. A autoridade política para mitigar conflitos relativos à segurança reside nos governos. Pesquisadores da saúde têm uma responsabilidade distinta: garantir que tais medidas sejam reconhecidas e abordadas como um determinante crítico da saúde. •
Publicado na edição n° 1395 de CartaCapital, em 14 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Cobertor despedaçado’
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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