Alberto Villas

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

Opinião

Chegou a hora de essa gente bronzeada mostrar o seu valor

Eu fiquei velho. Mas tem lá o seu lado bom. Não me preocupo mais com cobertura de carnaval, com a Copa do Mundo que vem aí ou com a greve do metrô

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
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Só agora caiu a ficha. Que ficha? Aquela de telefone, de orelhão? Que coisa mais antiga. Mas, enfim, caiu. Fiquei velho, ou melhor, idoso, como dizem agora. Entrei na melhor idade. Só rindo chamar esses 71 anos nas costas de melhor idade.

Percebi que estou velho porque as pessoas estão jovens demais. As pessoas que estão a mil, trabalhando, em ação. Correndo pra pegar o ônibus, nadando, caminhando, malhando.

Os meus amigos da Globo estão todos indo pra casa, sendo despachados um a um. É a idade que chegou. Já nem me assusto mais com tanta gente sendo demitida, na verdade, sendo aposentada.

Anos atrás, meus colegas de profissão, quando eram demitidos, saíam correndo procurando um novo emprego. E encontravam. Só mudavam de canal. Agora é diferente. Um saiu da Globo e foi morar num sítio, outro saiu do SBT e comprou um barco, outro está agora curtindo a netinha, e um outro plantando alcachofras. Ninguém mais procura emprego. Chega!

Mas, voltando à juventude, confesso que toda vez que vejo um garoto na televisão e entra o crédito presidente da organização tal, diretor-executivo… chefe do departamento… eu acho que entrou crédito errado.

Gente, esse menino não tem nem barba e já é coordenador do projeto tal?… Como assim?

E quando entra no ar, ao vivo, a correspondente da GloboNews em Washington? Não é possível! Essa menina tem idade não pra ser minha filha, mas minha neta! Sussurro.

Mas foi aí que caiu a ficha.

Eu acho que ela tem uns vinte anos, mas na verdade, tem trinta. Quando eu tinha trinta anos, era editor do Caderno 2, ora bolas! Nem tinha barba e já estava lá escolhendo se a capa do dia seguinte ira ser os Sex Pistols ou o Clash.

Pense comigo.

Minha neta Flora é antropóloga, o Gustavo, que vi menininho birrento querendo ir embora da minha casa, hoje é advogado. O Daniel, que carreguei no colo no hospital onde nasceu, hoje mora em Luxemburgo, já é pai, e trabalha no mercado financeiro. E a Bia, irmã dele? Psicóloga com consultório e tudo mais. E a Helô, que brincava comigo de fazer castelo na areia em Juqueí? Hoje é arquiteta e está de mudança pra Portugal.

Eu é que fiquei velho.

Mas tem lá o seu lado bom. Não me preocupo mais com cobertura de carnaval, com a Copa do Mundo que vem aí, com a greve do metrô, com a equipe que vai cobrir as enchentes, com a pauta para o dia dos namorados.

Hoje virei apenas um telespectador.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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