Carolina Maria de Jesus desconstrói a falsa ideia de que os pobres não leem livros

'Mais do que isso: evidencia o descalabro da proposta de taxação de livros', escreve a mestra em educação Luana Tolentino

Créditos: Wikiwand

Créditos: Wikiwand

Opinião

Em abril do ano passado, dediquei este espaço à escritora afro-mineira Carolina Maria de Jesus, autora do best-seller Quarto de despejo: diário de uma favelada. Passadas mais de seis décadas de seu lançamento, o livro em que ela narra a crueza da vida na extinta favela do Canindé permanece na lista dos mais vendidos do país.

Mesmo correndo o risco de soar repetitiva, não poderia abrir mão da oportunidade de escrever sobre Carolina mais uma vez. Foi na escritora – recentemente laureada com o título de doutora honoris causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – que pensei ao tomar conhecimento de um dos trechos da proposta de reforma tributária defendida pelo atual governo, que propõe a taxação dos livros. Como argumento para tal medida, parte-se do pressuposto de que “as pessoas mais pobres não consomem livros não didáticos”.

É importante ressaltar que a reforma é encabeçada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, o mesmo cujas entrevistas costumam ter como cenário uma estante de livros completamente vazia. O mesmo que no ano passado lançou uma “granada” de preconceito de classe ao justificar a elevação do preço do dólar. Guedes afirmou, na ocasião, que a alta da moeda norte-americana era benéfica, uma vez que, em um passado bastante recente, até as empregadas domésticas estavam indo para a Disney, “uma festa danada”, segundo ele.

Além de envenenada de preconceitos e da total falta de compromisso com a formação intelectual dos brasileiros, a defesa da taxação de livros revela um desconhecimento da realidade do País. De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2020), 46% das pessoas com renda familiar de menos de um salário mínimo são leitoras. Entre aquelas que recebem até dois salários mínimos, 51% cultivam o hábito de ler.

Carolina Maria de Jesus é prova disso. Ao longo das páginas de Quarto de despejo, a ex-catadora de papel e materiais recicláveis, que conheceu de perto a fome e a miséria, relatou sua paixão pelos livros, pela leitura e pela escrita. A escritora sabia que o apreço pelo saber a distinguia positivamente dos demais moradores da favela do Canindé, como também lhe garantia recursos para enfrentar as agruras do cotidiano. Conforme registrado no livro, no dia 23 de julho de 1955, Carolina escreveu: “Todos têm um ideal. O meu é gostar de ler”.

O hábito da leitura também proporcionava à Carolina Maria de Jesus uma capacidade única de interpretar a realidade social e política do país, o que no meu entendimento faz dela uma grande intelectual e não somente uma mulher que passou a maior parte da vida morando em favelas, conforme uma parcela da crítica literária e da imprensa tem difundido amplamente.

Em Quarto de despejo, a mãe de José Carlos, João José e Vera Eunice tece duras críticas à falta de políticas de assistência social, como também ao desprezo dos políticos pelos mais pobres. Além de refletir a respeito do Brasil de sua época, com brilhantismo, Carolina também apontou medidas capazes de solucionar os problemas do País, que colocavam a maioria da população em condições precárias de existência. Em 10 de maio de 1958, ela escreveu: “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar nos pobres e nas crianças”.

Embora tenha tido acesso a apenas “dois anos de grupo escolar”, Carolina buscou incessantemente transferir o gosto pela leitura aos filhos. Nas páginas de seus diários, ela relatou as dificuldades para comprar sapatos e materiais escolares para suas crianças, uma vez que o dinheiro obtido com a venda de ferros, latas e papelões mal dava para garantir uma única refeição ao longo do dia. Ainda assim, Carolina não abriu mão de mantê-los na escola. E escreveu: “Eu estou contente com os meus filhos alfabetizados. (…) O José Carlos disse-me que vai ser um homem distinto e que eu vou tratá-lo de Seu José”. Vera Eunice, filha mais nova da escritora, tornou-se professora de Língua Portuguesa.

Como se pode ver, a vida e a obra de Carolina Maria de Jesus jogam por terra a falsa ideia de que a população pobre não lê. Mais do que isso: evidencia o descalabro da proposta de taxação de livros. Carregada de preconceitos, constata-se que é mais uma tentativa de destruir a Constituição e direitos duramente conquistados, negando aos que não pertencem às classes dominantes o direito de ser, saber e existir.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente tem se dedicado à Formação Inicial e Continuada de Professores. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

Compartilhar postagem