

Opinião
Carnavaliza que eu gosto
O desfile da Sapucaí tende a triunfo do janjismo, mas o chumbo da ressaca vai ser grosso no segundo semestre
Então, vai rolar: os Acadêmicos de Niterói estão prestes a carnavalizar a heroica biografia de Lula, na fuça da Sapucaí, meses antes de uma eleição.
O “Novo” tentou impedir. Os jurisconsultos deixaram. E a direita brasileira está prestes a revivar na cova. Ou melhor, na cova ela estaria revirando se estivesse morta, o que infelizmente não é verdade.
Agora falemos sério (ou não muito). Somos mesmo a nova Roma (tipo Calígula ou Nero?), mas pensemos com distinção: alguém imagina aí que Jair Bolsonaro possa um dia ser o tema de uma escola de samba? Claro que não, ou me engano?
A direita fogosa (sim, ela existe) até pode balançar e se pegar no calor da pipoca (pagando por seus abadás, obviamente), mas a simples e crua verdade é que nada pode ser mais contrário à sua cabeça que a dimensão simbólica do carnaval, seu ethos. Pensemos numa lista de canções sobre isso: a festa da transgressão colaborativa, “a felicidade do pobre”, a utopia que se esvai, a paixão que escorre, a celebração da vida que depois evapora em cinzas, o desatino, “não se perca de mim!”, a festa capturada, gentrificada, “o visual virando quesito”, Sebastiana de fora, a pulsão autêntica que agoniza mas não morre. Ou morre? A lista de canções seria infinita. É o tema mais cascudo da música brasileira nosso espaço reflexivo mais agudo, contundente, cabuloso.
Parêntesis sociológico: não foi por nenhum acaso que a direita paulistana se opôs explicitamente à configuração do carnaval de rua paulistano feita por Juca Ferreira na gestão do prefeito Fernando Haddad – lá se vão quinze anos. Para ela, a direita mental, o argumento deve ser sempre o da grana. Quantos empregos gera a festa? Quantas latas de cerveja (sempre choca) serão vendidas? Vai ser bom para a Ambev? Quantos pix serão feitos, quantos neo-empreendedores serão beneficiados. Quanta renda se complementa? Quantos dólares aterrissam?
É na tabela contábil que os novos ou velhos conservadores toleram a “esbórnia” carnavalesca, que dizem afrontar os seus valores de tradição e família, assim como toleram paradas LGBT vendendo cerveja para “puta e viado” (ouvi essa em Ipanema, anos atrás, saindo da boca amarga de um cretino qualquer, nas beiradas do inclusivo bloco “Simpatia é quase amor”, que tem as cores do Engov). Quando se fala, porém, sobre a moralidade da direita, tudo é e não é, ao mesmo tempo. A lei moral de sua hipocrisia tem um único artigo: “Não esperem de mim o que exijo dos outros”.
Parágrafo único, também: nem toda nudez será castigada. Vide Epstein, tão abjetamente asqueroso que é difícil acompanharmos a notícia sem ânsia de vômito. Em suma, o que rola nos bloquinhos metropolitanos do Brasil, no espaço público, é fichinha perto das perversões privadas dessa turma. E os “cristãos radicais”, como sempre, rentabilizam a manipulação dos seus pudores. Tudo tem seu preço.
Sim, é verdade, a esquerda cultural também mergulhou demais nos jargões da economia criativa e Mariana Mazzucato pagou de celebridade ministerial no pré-Carnaval carioca, esquentando a pista para Janja. Ok, ninguém nega a importância do dinheiro. Mas existe – quero crer – uma sutil diferença de fundo: o que se faz ou se deve fazer com os incrementos de renda, essa é a questão que diferencia uns (mais à esquerda) e outros (mais à direita). O tema real é – ou deveria ser – o tema da profissionalização e do espetáculo autônomo. Sempre foi esse o forte do desfile carnavalesco. Esse tema, entretanto, não existe na agenda neocon, que normalizou o regime social da viração e do bico.
Repita-se: os homenageados em desfile podem ser quaisquer um, inclusive Jair Bolsonaro – seria um necro-carnaval disruptivo, com destaque para as alas da Pistola, do Queiroz, da Rachadinha, a Ala dos Filhos, da Covid, da Vacina (um vazio na avenida), a Ala dos Coveiros e, fechando o cortejo (fúnebre), a ala pomposa (ou papuda) dos Generais Algemados. Haja (e viva) Aldir Blanc!
Parêntesis político: a madre superiora, caindo na folia às escondidas, tem uma ressalva apenas: que depois da quarta-feira a esquerda se modere no oba-oba. O desfile da Sapucaí tende a triunfo do janjismo, mas o chumbo da ressaca vai ser grosso no segundo semestre.
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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