

Opinião
Carnaval e eleições
De forma simpática ou crítica, políticos costumam ser retratados em sambas-enredo. A celeuma em torno da escolha da Acadêmicos de Niterói parece muito barulho por nada, causado por boas doses de moralismo
A semana de carnaval e aquelas que a antecedem costumam ser marcadas pela evidência de celebridades e subcelebridades na preparação e, depois, na efetiva participação em desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e São Paulo. Destaques, rainhas de bateria e homenageados são retratados na cobertura da mídia. Alguns, por sinal, já são figurinhas carimbadas do evento momesco, pois, ano sim, ano também, se preparam diligentemente para a festa, tendo nela oportunidade para se manter visíveis e faturar durante o resto do ano. São festeiros profissionais.
De tempos em tempos, também surge um samba-enredo memorável, daqueles que, devido à sua qualidade musical, ultrapassam as atenções dos carnavalescos militantes e cativam também os que costumam passar alheios à festa. Em minha memória, nenhum soa mais fortemente do que Bum Bum Paticumbum Prugurundum, tema do Império Serrano no já longínquo ano de 1982.
Nesse período, a política nunca está ausente do noticiário. Por vezes, apenas devido à presença de algum político em camarotes, ou em decorrência de eventos pitorescos envolvendo mandatários. Foi esse o caso de Jair Bolsonaro em 2019, quando postou em seu Twitter uma pergunta: “O que é golden shower?”, aludindo a um episódio do carnaval paulistano, quando dois homens, dançando sobre um ponto de táxi, foram filmados, um urinando no outro. A devassidão escatológica e homoafetiva em público era um prato cheio para o reacionarismo moral homofóbico do então presidente. Um quarto de século antes, em 1993, foi o presidente Itamar Franco que ganhou destaque, aparecendo na Marquês de Sapucaí ao lado da modelo Lílian Ramos, fotografada sem calcinha.
Afora esses episódios grotescos, a política se faz presente também de forma direta, tematizada nos sambas-enredo das escolas. Em 1956, dois anos após o suicídio de Getúlio Vargas, a Mangueira homenageou o presidente na avenida. Durante os anos 1960, no período de chumbo da ditadura, havia a imposição de que os enredos tratassem da história do Brasil. Remetendo ao passado, geralmente de forma glorificada, ficaria mais difícil apontar as mazelas do presente. Ironizando tal situação, Sérgio Porto (mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta), compôs o Samba do Crioulo Doido, que, antes de se tornar expressão popular, foi gravado em 1968 pelo Quarteto em Cy. A letra misturava fatos históricos de forma amalucada, ensejando a metáfora. Em 1975, a Beija-Flor de Nilópolis teve um infame samba-enredo enaltecendo a ditadura: O Grande Decênio. Um dos versos dizia: E o Beija-Flor vem exaltar, com galhardia o grande decênio, do nosso Brasil que segue avante, pelo céu, mar e terra.
De lá para cá, muitos políticos foram homenageados. Alguns deles, como Juscelino Kubitschek, tema da Mangueira em 1981 e da Beija-Flor em 2010 (numa homenagem a Brasília), já estavam mortos. Outros, contudo, bem vivos. Foi o caso de Anthony Garotinho, homenageado pela Independentes de Cordovil em 1994 com o enredo O Garotinho de Campos Vem Aí… Sacudindo a Sapucaí. Naquele mesmo ano, ele disputou o governo do Rio de Janeiro, perdendo no segundo turno para o tucano Marcello Alencar. Não consta que tenha tido problemas com a Justiça Eleitoral à época.
A Gaviões da Fiel, escola da maior torcida organizada do Corinthians, homenageou Lula em 2012 com o samba-enredo Verás Que o Filho Fiel Não Foge À Luta – Lula o Retrato de Uma Nação. O corintiano Lula, à época, se tratava de um câncer e não pôde comparecer à homenagem. Nove anos antes, a Beija-Flor teve um enredo sobre o combate à fome e Lula, ainda na Presidência, foi enaltecido num carro alegórico na forma de um grande boneco.
Ocasionalmente, em vez de exaltados, políticos são detratados. Foi assim com Michel Temer em 2018, ano de eleição presidencial, quando encerrava seu mandato, abdicando de tentar se reeleger, tamanha a sua rejeição. A Paraíso do Tuiuti retratou o chefe de Estado como um vampiro, causando grande polêmica. Em 2022, outro ano eleitoral, a escola de samba paulistana Rosas de Ouro mostrou Bolsonaro se transformando num jacaré após ser vacinado.
Nesse contexto histórico se inscreve o enredo da Acadêmicos de Niterói, Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil. A antes pouco conhecida escola da antiga capital fluminense não inovou. O que parece ter mudado são os parâmetros com os quais se analisa o caso. É muito barulho por nada, causado por boas doses de moralismo e oportunismo eleitoral. •
Publicado na edição n° 1401 de CartaCapital, em 25 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Carnaval e eleições’
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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