Maria Inês Nassif

Jornalista e cientista social. Trabalhou nos principais jornais do país. Foi assessora do Instituto Lula.

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Candidato a capitão do mato

Flávio Bolsonaro não procura voto, espera apenas que Trump tome o poder para ele, à força

Candidato a capitão do mato
Candidato a capitão do mato
O candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro. Foto: Evaristo Sa/AFP
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Se a extrema-direita apostasse, de fato, na conquista do poder pelo voto, teria se imposto à família Bolsonaro e substituído o candidato às eleições presidenciais. Flávio é inepto e corrupto. Como o pai, confiou na débil Justiça fluminense e no socorro de uma ala do Ministério Público (e agora, na condescendência de um ministro do STF “terrivelmente evangélico”) para livrá-lo dos rigores da lei, embora sem conseguir apagar os rastros das atividades ilícitas. O último escândalo no qual aparece envolvido até o pescoço, o do Banco Master, ainda está quente. Também são indeléveis suas digitais nas negociações com o governo de Donald­ Trump para impor sanções ao Brasil e ameaçar a soberania do País.

Além da folha corrida, o filho de Jair não oferece nada ao eleitor. Escancarou um discurso misógino mesmo diante da evidência de que estará derrotado nas urnas se não quebrar o franco favoritismo do presidente Lula no eleitorado feminino. Escolheu como vice um homem que traz na bagagem uma denúncia por estupro de vulnerável. Fez discursos ameaçadores contra o seu próprio País e apoiou publicamente (e incentivou) as ameaças de Trump ao sistema eleitoral. Rompeu publicamente com a madrasta que, dizem, tem mais votos do que ele. Perdeu apoio entre evangélicos, segmento fundamental na eleição de seu pai em 2018 e na tessitura de um movimento de massas de perfil fascista que manteve Jair no poder e apoiou a tentativa de golpe quando o “mito” foi derrotado por Lula em 2022.

Flávio faz movimentos desagregadores no próprio partido. Tomou para si, como se propriedade sua fosse, uma máquina partidária que, embora tenha ganhado força e importância na esteira do bolsonarismo, constituiu-se nacional e regionalmente como uma legenda forte, com boa representação municipal e uma bancada expressiva no Congresso. É duvidoso que a tomada de assalto do PL de Valdemar Costa Neto dê ao candidato algo além do que financiamento eleitoral. Não existe uma relação orgânica da legenda com ele. O partido cristianizá-lo no meio de um processo eleitoral (jargão político para designar abandono do candidato pelo seu próprio partido, em favor de outro com maiores chances de vitória) não é uma hipótese implausível.

São enormes as evidências de que Flávio é um candidato fraco. Por que, então, se mantém candidato?

A candidatura é um projeto familiar, não apenas de poder, mas de sobrevivência. Estar no poder é a única proteção contra os processos que correm em várias instâncias judiciais contra seus integrantes. Um dos filhos, Eduardo, é foragido da Justiça. O pai está preso por tentativa de golpe de Estado. Carlos e Renan, candidatos, respectivamente, a senador e deputado­ federal por Santa Catarina, precisam de um mandato parlamentar para se proteger de futuras condenações. Flávio seria a tábua de salvação dele próprio. Em algum momento, algum juiz pode se perguntar por que ele compra tantos apartamentos em dinheiro vivo e os vende meses depois pelo triplo do preço.

Se hoje o único apoio inconteste de Flávio é o do governo Trump, e se a tendência eleitoral da família Bolsonaro, representada pelo senador, é a de declínio, e perder a eleição é a hipótese mais plausível no momento, se ele não exerce poder agregador sobre as outras candidaturas de direita, de cujos votos precisaria desesperadamente no segundo turno, se optou por uma candidatura do medo – ou ele, ou a intervenção dos EUA sobre as eleições brasileiras e um possível golpe no candidato com chances efetivas de vitória, o presidente Lula, se conseguiu a façanha de ser rejeitado inclusive pelo setor das Forças Armadas que apoiou a tentativa de golpe contra Lula em 8 de janeiro de 2023, é lógico que aposta na chegada ao poder por um golpe tipo Venezuela. Lula ganha, os EUA contestam a eleição e usam a força para tirá-lo do poder, e Flávio, o amigo do imperador do mundo, assume.

É esse o projeto de Flávio, Eduardo, Carlos, Jair Renan e Paulo Figueiredo, neto do ditador João Figueiredo. E, principalmente, de Jair, que não quer morrer na cadeia. É esse o projeto de Trump, que quer do Brasil petróleo, terras-raras e o que der para agregar não apenas à riqueza dos EUA, mas, principalmente, às próprias finanças. O mundo vive o imperialismo das plutocracias, do uso do poder militar para a concentração cada vez maior das riquezas do planeta nas mãos de poucos. Nesta nova divisão internacional existem os hiper-ricos, o poder militar concentrado nas mãos do país central do capitalismo e os capitães do mato, aqueles que fazem o serviço sujo de desviar a riqueza das nações para os bolsos dos donos do mundo.

Flávio é candidato a capitão do mato. •

Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Candidato a capitão do mato’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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