Buscar a paz sem justiça é premissa do opressor que não liberta o oprimido

Em meio ao genocídio, o churrasco de estátua, estranhamente, ganhou importância, escreve Milton Rondó

Créditos: Reprodução / TV Globo

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Opinião

“A paz tem de ser obra da justiça.”
São Oscar Romero.

Em várias partes do mundo, estátuas de escravagistas foram derrubadas no último ano, em protesto ao racismo que ainda prevalece no âmbito da maioria das polícias e que levou o afrodescendente George Floyd, de 40 anos, à morte, por asfixia, em Minnesota, nos Estados Unidos, em 25 de maio de 2020.

No Brasil, no último sábado, no sábado 24, foi ateado fogo na estátua do bandeirante Borba Gato, em São Paulo.

Em meio ao genocídio de mais de 550 mil pessoas mortas por uma doença para a qual existe vacina, mas para cuja aquisição o desgoverno condicionou a propina; às queimadas na Amazônia, em ritmo inaudito; e à fome de metade da população, o churrasco de estátua, estranhamente, ganhou importância.

A melhor reação à polêmica artificial encontrei no Twitter de Bem Bodinho: “Este país só vai melhorar quando tiverem com as pessoas a mesma consideração que têm com as estátuas e vidraças.”

Buscar a paz sem a justiça é premissa do opressor que não liberta o oprimido, pois, por definição, a métrica dos opressores não serve à libertação, sendo, evidente e intrinsecamente, antilibertadora.

 

 

 

De fato, a libertação implica novos conceitos e formas de luta, diria Antonio Gramsci, que reputo o maior filósofo político do século XX, para quem a cultura é o centro da política, seu eixo portante e coluna vertebral.

Na semana que se encerrou, faleceu também um dos líderes da Revolução dos Cravos em Portugal, Otelo Saraiva de Carvalho.

No belíssimo filme “Capitães de Abril” em que Otelo Saraiva é interpretado magistralmente pelo ator italiano Stefano Accorsi, assistimos a cena icônica em que, entrando os tanques rebeldes em Lisboa, o comboio para e Accorsi/Otelo indaga por quê pararam. A resposta do condutor do primeiro tanque foi: “Porque o sinal estava vermelho”. Não conheço definição mais perfeita e completa, de como somos oficialistas os herdeiros da tradição ibérica.

A propósito, em alusão ao 14 de julho, data da queda da Bastilha e início da Revolução Francesa, e recordando a maravilhosa biografia de Maria Antonieta, então rainha da França e arquiduquesa da Áustria, obra escrita por Stephan Zweig, não me lembro da avaliação dela daquele fato histórico, mas imagino que não teria sido positiva…

Na semana passada, falou-se também dos protestos em Cuba.

Como uma imagem vale mil palavras, no dizer dos sábios chineses, retomo a foto em que a polícia cubana está de frente para os manifestantes, que, sem serem importunados, portam tacos de beisebol – o esporte nacional – mas que também são verdadeiras armas.

Nenhuma palavra da oligárquica imprensa nacional a respeito, valendo notar que, no Brasil, a polícia costuma recolher hastes de bandeiras e até sombrinhas, como aconteceu comigo em mais de uma manifestação.

Outra fotografia eloquente, na semana, foi a do vice-presidente ilegítimo, sendo recebido pelo digno presidente de Angola.

Na foto, o general vice-presidente está com as pernas cruzadas, mostrando para o anfitrião a sola do sapato, descortesia em qualquer latitude ou longitude do mundo, principalmente em continentes de predominância muçulmana, como a África, em que os calçados são retirados nos ambientes sagrados. Os 17 assessores que para lá também viajaram, às nossas expensas, não parecem ter sido de grande serventia…

 

 

A caserna ainda nos traria mais dissabores na semana passada: além das revelações da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a provável roubalheira de militares lotados no Ministério da Saúde, a qual, além dos prejuízos materiais teria levado mais de 450 mil pessoas à morte, tivemos de ouvir do general “ministro” da defesa, cujo salário no mês de junho ultrapassou os 100 mil reais, ameaças grosseiras à democracia, à qual confessadamente atentaram em 2016.

Vale recordar que, quando interventor no Rio de Janeiro, o militar teria comprado 40 milhões de equipamentos sem licitação, da empresa que contratou os mercenários que assassinaram o presidente do Haiti, em 7-7-21. Não é pouco, nem para os padrões a que estamos ficando acostumados no Brasil.

Aliás, preparemo-nos para mais desemprego: as tarifas para a importação de veículos europeus cairão 50%. Infelizmente, quem pagará por essa irresponsabilidade serão os trabalhadores e trabalhadoras brasileiros.

As velhas metrópoles europeias buscam reforçar a dominação sobre as ex-colônias, pois a corrida tecnológica já foi perdida, para a China, cuja moeda, o yuan, deverá passar a ser lastro de garantia de um terço dos bancos centrais do mundo, com enorme prejuízo para o dólar estadunidense e o euro europeu.

Por sorte, em meio ao caos, temos o belo espetáculo das Olimpíadas. Atletas negros e um esporte tão democrático como o skate trazem-nos felicidade. No Brasil, os verdadeiros senhores e as senhoras são seu povo, não as oligarquias, cópias malfeitas das metrópoles, “darwinistas”, na má compreensão do conceito.

Por isso, que as Olimpíadas inspirem as oligarquias ao fair play, a competição justa, sem golpes, menos ainda os de estado. Seremos, então, uma orquestra sinfônica, uma floresta diversa, em que cada um e cada uma possa contribuir com seus dons, para a liberdade e a compreensão de que servidores públicos, fardados ou não, devem servir, não serem servidos, como bem lembrou recentemente o influenciador Felipe Neto a um certo brigadeiro golpista.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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