João Pedro Stédile

Militante do MST e da Frente Brasil Popular

Opinião

Brizola foi o melhor governador de esquerda do Brasil

O fundador do PDT foi um estadista, um homem comprometido com seu tempo e com o povo brasileiro. Fazem faltas figuras públicas desta tradição

Leonel Brizola, presidente do PDT, em 2004 - Foto: ROBSON FERNANDJES/ESTADÃO CONTEÚDO/AE)
Leonel Brizola, presidente do PDT, em 2004 - Foto: ROBSON FERNANDJES/ESTADÃO CONTEÚDO/AE)
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Conheci Brizola quando criança. Ele era governador do meu estado e passou por minha região em atividades políticas. A “camponesada” toda foi vê-lo. Já naqueles idos, era um personagem muito popular, um verdadeiro ícone, admirado por muitos e odiado pelas oligarquias.

Na época, eu estudava numa escolinha que seu governo havia construído em todas as comunidades rurais do estado – e que a direita passou a chamar de “Brizoletas”, porque eram todas iguais. O apelido pegou de forma carinhosa. Mas, o mais importante é que ele conseguiu universalizar o ensino fundamental por todos os rincões do estado.

Brizola sofreu na pele a pobreza e a falta de escola. Órfão desde criança, sua mãe pediu ajuda a amigos para que ele pudesse estudar na cidade, e depois fazer o colegial agrícola no internato em Viamão – colégio é famoso até hoje por tê-lo tido como seu aluno. Estudioso, conseguiu entrar no elitista curso de engenharia civil da UFGRS. Deve ter sido o primeiro pobre a se formar engenheiro no Rio Grande. E do movimento estudantil, migrou rapidamente para as atividades politico-partidárias.

Foi por descobrir que só a educação liberta verdadeiramente as pessoas e pode vencer a pobreza, que Brizola passou a aplicá-la como política pública no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro. Fui um dos beneficiários dessa visão.

Quando cultivei amizade com ele, já maduro, vivendo no Rio, Brizola nos contou sobre sua vida como governador e que gostava de utilizar feriadões para pegar uma camionete, e sem seguranças, apenas com a esposa e seus filhos, acampar em alguma fazenda ou próximo aos rios, para descansar e pescar. Que governador faria isso agora?

No governo, Brizola implantou políticas públicas revolucionárias para a época e para os dias atuais. O que me leva a concluir que ele foi o único governador verdadeiramente de esquerda que tivemos em toda história do País.

Brizola universalizou o ensino fundamental para todo povo gaúcho. E abriu as portas para que os jovens da classe trabalhadora depois ascendessem ao ensino médio e superior, como ele sonhava. Criou a siderúrgica rio-grandense, uma estatal preocupada com a indústria de base. Desapropriou a telefônica ITT, e como estatal disseminou a telefonia por todo estado. Criou uma estatal do leite, a CORLAC para garantir mercado a todos camponeses produtores de leite do estado.

Antes que tivéssemos uma lei nacional de reforma agraria ou politicas fundiárias, Brizola criou o instituto gaúcho de reforma agrária- IGRA, para organizar a desapropriação de terras improdutivas para agricultores sem-terra. E sabia que a reforma agrária não dependia apenas de vontade política, mas da capacidade de organização dos trabalhadores do campo. Por isso, deu todo apoio ao nascente Movimento dos Agricultores Sem Terra, o Master, que era impulsionado pelo PTB e organizava acampamentos na beira das fazendas improdutivas.

A maior delas, a Fazenda Sarandi, se transformou em um ícone da luta pela reforma agrária no Brasil. Tinha 24 mil hectares de terras fertilíssimas no município que lhe empresta o nome, e era propriedade de latifundiários uruguaios, os Mailios, que se interessavam apenas pela exploração dos pinheirais.

Brizola não teve dúvida e, com sua lei estadual, desapropriou a fazenda Sarandi, distribuindo a terra para centenas de famílias de sem terras da região.

Essa prática se repetiu em outras terras de Viamão, Encruzilhada do Sul, etc.  Brizola ficou conhecido nacionalmente como o implementador da primeira reforma agrária do País.

Mas Brizola se preocupou também com toda agricultura familiar gaúcha. E organizou outro instituto, o IRGA, para fomentar e apoiar o desenvolvimento do arroz. Criou um programa gaúcho para disseminar a produção de trigo, em que quase chegamos a ser autossuficientes nacionalmente, e estimulou modernas técnicas de mecanização e do uso do calcário nos solos pobres da campanha.  Criou várias estações experimentais e colégios agrícolas estaduais, esparramados pelo estado, onde se aprendiam as técnicas modernas e a mecanização. Tendo ele estudado num colégio agrícola, sabia de sua importância para os jovens pobres do campo.

Estavam criadas as bases para termos uma poderosa agricultura produtora de alimentos sob a forma de agricultura familiar, que o Brizola chamava de “turma dos colonos”.

Ou seja, tinha uma visão de desenvolvimento econômico e social para gerar riqueza que beneficiasse a todo povo.

Nas escolas, Brizola garantiu calçado, uniforme, cadernos e lápis para cada aluno. Nunca mais esqueci da figura que estava na capa do caderno, do lendário líder guarani Sepé Tiaraju, assassinado pelos exércitos espanhóis e portugueses na guerra de 1756.  E lá estava a frase de Sepé: “Essa terra tem dono!” Mais tarde, aprendi que a frase foi mal traduzida do guarani, que não tem a palavra dono ou propriedade. Na verdade, Sepé quis dizer que aquele território era do povo guarani. Brizola conhecia a experiência democrática dos guaranis e estimulou que as crianças conhecessem.

Depois de 1962, ele migrou para o Rio de Janeiro, onde se elegeu o mais votado deputado federal da República. Organizou no parlamento a luta em defesa do governo popular de Goulart, mas não conseguiu impedir a sanha golpista que se realizou dia 1º de abril de 1964.

Lamentavelmente, teve que amargar o exílio no Uruguai. Ainda tentou organizar uma resistência, até armada, mas a hegemonia política e a força bruta se instalara em todo país.

De volta do exílio, amargou mais duas derrotas institucionais: perdeu o controle da sigla que tanto sonhara, o PTB, e também o apoio de parte de seus companheiros e companheiras, que preferiram ficar no MDB. Mesmo assim, disputou o governo do Rio. E venceu, apesar do Serviço Nacional de Inteligência, hoje ABIN, que tentava de qualquer maneira impedir sua vitória e estava fraudando os boletins. Uma soma paralela de imprensa impediu o golpe.

No Rio, Brizola tentou implementar de novo políticas públicas revolucionárias. E cercou-se de grandes sábios como Oscar  Niemeyer, Darci Ribeiro, Nilo Batista, entre outros, e passou a redesenhar o estado. E a marca de seu governo foi, de novo, a educação, com a implantação dos CIEPS, que garantiam ensino fundamental e médio, em tempo integral a todos estudantes, de forma gratuita, com todos os instrumentos pedagógicos possíveis.

Em 1989, disputou as eleições presidenciais, quase chegou ao segundo turno, mas perdeu pelo novo reascenso do movimento de massas que brotou da luta contra a ditadura e que havia criado o PT, a CUT, o MST como uma nova geração de lutadores. Nas eleições seguintes, voltou a ser governador do Rio e chegou a ser candidato a vice do Lula.

E, quem sabe, uma de suas últimas vitórias foi ter conquistado na Justiça o direito de resposta no Jornal Nacional, em que o Cid Moreira teve ler uma nota escrita pelo Brizola, em que denunciava o papel manipulador da Globo, que ajudou a dar o golpe de 1964 e se beneficiou dele para construir um império midiático até hoje.

Grande Brizola, foi uma figuraça, um estadista, um homem comprometido com seu tempo e com o povo brasileiro. Fazem faltas figuras públicas desta tradição.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

João Pedro Stédile

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