Boulos: com Edmilson Rodrigues, Belém é uma das poucas boas notícias em 2021

'Com um orçamento de apenas 3,7 bilhões, anunciou como primeira medida a criação de um programa de Renda Básica para os mais pobres'

O prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues (PSOL). Foto: Mácio Ferreira/Prefeitura de Belém

O prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues (PSOL). Foto: Mácio Ferreira/Prefeitura de Belém

Opinião

Não está muito fácil achar boas notícias no Brasil. A combinação de Jair Bolsonaro, pandemia e desastre econômico tem afundado o País em um dos períodos mais sombrios de sua história. As próprias restrições sanitárias impostas pela Covid-19 praticamente bloqueiam uma reação popular massiva nas ruas, ao menos por enquanto. E o Congresso, com a acomodação entre Bolsonaro e o Centrão, não indica que tomará qualquer iniciativa em relação à tragédia.

 

 

Em meio ao caos nacional, intrincada no coração da Amazônia, Belém nos dá uma luz. As eleições municipais de 2020 foram marcadas pela derrota do bolsonarismo, por avanços do centro-direita, mas também pelo renascimento de boas notícias no campo da esquerda, que começou a sair da lona. A vitória de Edmilson Rodrigues, do PSOL, em Belém foi uma delas. Ainda no período eleitoral, a capital paraense deu exemplo: lá foi ensaiada a tão desejada Frente de Esquerda, numa aliança que reuniu o PSOL, o PT, o PCdoB, o PDT, a Rede e a UP em torno de Edmilson. Foi uma demonstração de que é possível, no primeiro turno, superar diferenças e unir as forças progressistas. A vitória eleitoral indica que isso pode fazer a diferença. 

Edmilson assumiu em 1º de janeiro uma cidade em séria crise financeira e, como em todo o País, com agravamento da pobreza e do desemprego. O Brasil superou 14 milhões de desempregados no fim do ano, a pior marca da série histórica medida pelo IBGE. A segunda onda da pandemia veio feroz, sobretudo na Região Norte, forçando a manter e mesmo endurecer as medidas restritivas. Foi num cenário como esse que Bolsonaro suspendeu o pagamento do auxílio emergencial, que garantia comida na mesa de 68 milhões de brasileiros. Alegou falta de recursos, mesmo tendo em suas mãos a possibilidade de medidas como a ampliação da base monetária (feita, dentre outros, pelo Banco Central Europeu) ou a tributação emergencial de bilionários (a exemplo da Argentina). Agora, anuncia a retomada de um auxílio minguado e com a contrapartida de mais medidas de austeridade. 

 

Bolsonaro lavou as mãos. Edmilson, com um orçamento de apenas 3,7 bilhões de reais, anunciou como primeira medida a criação de um programa de Renda Básica para os mais pobres, o Bora Belém.

 

O benefício pode chegar a até 450 reais. Mostrou que o debate não é apenas contábil, mas, sobretudo, uma questão de prioridades. Aliás, em nossa campanha em São Paulo apresentamos o programa Renda Solidária, que beneficiaria até 1 milhão de pobres na maior cidade do País. Debatemos longamente com economistas, mostramos como a proposta cabia no orçamento, mas fomos atacados pelos adversários, economistas liberais e parte expressiva da mídia como irresponsáveis com as contas públicas. São Paulo tem um orçamento quase 20 vezes maior que o de Belém. O alcance do programa de Edmilson vai além das fronteiras paraenses e mostra ao Brasil que é possível governar invertendo prioridades.

E não foi somente no tema da Renda Básica que a prefeitura de Belém dá exemplo para o Brasil. Edmilson formou um gabinete paritário, com mulheres à frente de metade dos cargos de primeiro escalão. É possível. Tem também a oportunidade de construir uma agenda ambiental positiva, em contraponto à política do “passar a boiada” de Bolsonaro na Amazônia. Belém tem o potencial de mostrar que um partido como o PSOL – em ascensão, mas ainda minoritário na esquerda – não é apenas bom de oposição, mas também pode governar e com um modelo radicalmente comprometido com o povo e o combate às desigualdades. Mesmo com todos os limites de uma gestão municipal, em tempos de crise e de bolsonarismo.

A política brasileira tem enorme dificuldade em reconhecer e assimilar o que vem de fora do eixo Sul-Sudeste. A mídia nacional também. Não fosse isso, o início do governo de Edmilson Rodrigues teria muito mais impacto e repercussão. Belém é, sem dúvida, uma das poucas boas notícias deste início de 2021. 

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Foi candidato à Presidência da República em 2018, pelo PSOL.

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