Borba Gato não é apenas um bloco de pedra

Não se muda o presente sem dar o devido tratamento aos nossos mortos

Borba Gato, bandeirante ligado ao tráfico de pessoas, tem estátua queimada em São Paulo. Foto: Reprodução/Jornalistas Livres

Borba Gato, bandeirante ligado ao tráfico de pessoas, tem estátua queimada em São Paulo. Foto: Reprodução/Jornalistas Livres

Cultura,Opinião

Desde o incêndio da estátua de Borba Gato na cidade de São Paulo, no último sábado 24, durante as manifestações contrárias ao governo de Jair Bolsonaro, se intensificou uma controvérsia sobre a adequação ou não do ato. Afinal, é legítimo atacar monumentos a personalidades vinculadas a um passado colonial, genocida e escravista ou a ação consiste em vandalismo e erro estratégico?

 

 

O ataque à estátua do bandeirante não foi um evento atípico, e se insere em uma tendência global que questiona qual passado queremos celebrar nos espaços públicos. A decapitação de Cristóvão Colombo nos Estados Unidos, a submersão de Edward Colston na Inglaterra e a derrubada de Sebastián de Belalcázar na Colômbia são apenas alguns exemplos de uma tendência iconoclasta, que não trata o passado apenas como o território dos mortos a ser lembrado, mas como participante cotidiano da política dos vivos.

Alguns, críticos da queima da estátua, indicaram que o ato seria inadequado pela tentativa de “apagar o passado”. Ora, bibliotecas foram escritas para compreender figuras como Borba Gato e o papel dos bandeirantes na formação do Brasil, as quais permanecerão existindo com ou sem o monumento. A pergunta mais adequada a se fazer seria: qual passado uma estátua em homenagem a Borba Gato, caçador de indígenas e escravizados, apaga ao permanecer em pé na maior cidade do país?

Outros apelam para o direito, alegando que o episódio seria uma ação de vândalos, digno de punição penal. Todavia, o direito que mantém Borba Gato intocável em seu caráter de patrimônio também, anteriormente, legitimou que indígenas e negros fossem tratados como coisas a serem comercializadas, permitindo ao próprio bandeirante as suas incursões violentas. Desta forma, é necessário que se abra um debate sobre que patrimônio preservamos e sobre como a legislação poderá ser aperfeiçoada para que não reproduza as violências do passado na paisagem de nossas cidades. Neste sentido, a própria abertura da controvérsia após o ato de sábado pode ser encarada como um ponto positivo.

Ainda há, por fim, os que consideram a manifestação como um erro estratégico da esquerda, uma vez que desviaria a atenção das principais pautas das manifestações do dia 24 de junho, como o impeachment de Bolsonaro, o aumento no valor do auxílio emergencial e a aceleração da vacinação no país. Ou, além disso, quem diga que a iconoclastia contra o bandeirante pode se voltar contra símbolos da própria esquerda, abrindo um vale-tudo destrutivo contra a memória.

Acredito que estes últimos passaram os últimos anos fora do Brasil, ou andaram um tanto adormecidos.  Estátuas como a de Borba Gato, assim como a manutenção pública da memória de torturadores, colonizadores e escravistas são uma pré-condição para a existência do bolsonarismo. Junto com ruralistas, militares, pastores fundamentalistas, armamentistas, milicianos e toda a sorte de vivos que reproduzem o caráter colonial do poder no Brasil, eles lutam aliados a um exército de mortos.

Não é à toa que Bolsonaro, na votação do impeachment de Dilma Rousseff, invocou o torturador Brilhante Ustra, alçando o episódio a uma reedição de uma batalha mitológica, na qual os seus opositores “perderam em 1964, perderam em 2016”. Mas, além de 2016 e 1964, a fala do presidente no Clube Hebraica do Rio de Janeiro, em que comparou quilombolas a animais gordos e preguiçosos que pesavam mais de 7 arrobas, reedita outras batalhas, como a captura de escravizados fugitivos ou aquilombados pelos mesmos bandeirantes celebrados em praça pública na capital paulista. Ou, outra vez, este exército de mortos é invocado quando Bolsonaro aponta que os povos indígenas estão se tornando cada vez mais “humanos iguais a nós”, traçando um paralelo entre as ameaças atuais aos territórios indígenas e as entradas genocidas de Borba Gato e seus similares.

A questão principal, a meu ver, é que Borba Gato não é apenas pedra, não é apenas monumento, não é apenas “história”: Borba Gato é um ator. Fincado no coração de São Paulo, ele, morto, age na política nacional, alia-se aos novos bandeirantes, e autoriza um projeto de país no qual algum “desenvolvimento” deve ocorrer mesmo que sobre uma pilha de mortos reduzidos à condição de coisa.

Um país que permite uma estátua de Borba Gato em praça pública permite Bolsonaro no poder.

Não se muda o presente sem dar o devido tratamento aos nossos mortos.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

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