Opinião

Bom resultado do agronegócio não tem a ver com o governo Bolsonaro

Muito pelo contrário. Com as políticas por ele implantadas no que diz respeito à preservação ambiental, custos da produção agropecuária e apoio à agricultura familiar, ele foi um desastre

Foto: CAIO GUATELLI / Caio Guatelli / AFP
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Mais uma vez, e como há pelo menos duas décadas, quem garante resultados positivos para a economia brasileira é o agronegócio. Tal realidade tenho aqui reproduzido amiúde.

Sempre me abstive, porém, de ver o agronegócio como “economia do mal”, voltada apenas à exportação, plantadas em largas extensões de terra, sob formações empresariais grandes, produtos com preços regulados em bolsas do exterior.

O termo foi importado dos EUA, entre 1970 e 1980 (agribusiness) numa tentativa de aumentar a importância da agropecuária na avaliação dos brasileiros, sobretudo da mídia.

Pegou, mas de forma parcial e equivocada. Repito: quando um tabaréu de Petrolina (PE) planta, aduba e trata, processa, embala, vende para o mercado interno ou externo graviola, fez negócio agropecuário. Teve que trabalhar dentro e fora das fronteiras da fazenda.   

Tão óbvio, que hoje em dia percebo os candidatos à Presidência da República se ancorarem no mesmo fato para, supostamente, exaltarem suas desastradas gestões.  Quando não o fazem de forma adequada, inventam ou mentem, muitas vezes coonestados por truques ou equívocos da mídia corporativa.

Na edição de 13 de outubro de 2022, primeira página, o jornal “Valor”, em matéria assinada por Marcília Gombata, anuncia: “Agro cresce, ignora crises e vive ‘realidade paralela’ à do Brasil”. 

Tomando os resultados no 1° turno das eleições presidenciais, a proximidade do 2° turno, e as sucessivas pesquisas de votos, adicionando fatos e fotos cotidianos perpetrados pelas campanhas, na essência, o Valor-Globo justifica a preferência e o voto ruralista por Jair Messias ao bom desempenho do agronegócio. 

Nada a ver. Se os resultados são reais, também são históricos. E sua manutenção nada tem a ver com a gestão do atual presidente.

Muito pelo contrário. Com as políticas por ele implantadas no que diz respeito à preservação ambiental, custos da produção agropecuária e apoio à agricultura familiar, ele foi um desastre.

Apesar de situações climáticas adversas em algumas regiões, foram nossas condições edafoclimáticas, graus de trabalho e tecnologia alcançados pelos produtores rurais, o alto valor das cotações das commodities, o câmbio, é que garantiram as expressivas produção e renda obtidas.

Como é possível um território de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, banhado por 9.200 km (consideradas as reentrâncias) de águas oceânicas, clima temperado (por quanto tempo?), bacias hidrográficas abundantes, jazidas minerais, matas e florestas ricas em fauna e flora, uma das mais expressivas biodiversidades do planeta, bailando entre distintos biomas por toda a sua extensão, em pouco menos de quatro anos, ter-se despedaçado, a ponto de vir a necessitar de algumas décadas para retornar aos trilhos do desenvolvimento econômico, social e cultural?

De quem a culpa? Jair Messias Bolsonaro? Não só. Ele é muito incapaz para o tamanho de tal desastre. Teve quase 50% de eleitores a ajudá-lo. Não que as debacles fossem assim unicamente tão recentes. A história, em pouco mais de cinco séculos, conta muitas oportunidades perdidas, desvios geopolíticos crassos, descuidos com a soberania e a concentração de rendas.

Muitos, os mais ricos principalmente, preferem colocá-la sobre os ombros dos humanos aqui nascidos ou aportados, como se também eles não fizessem parte desse contingente amorfo. “São os outros dizem … índios, negros, nordestinos, pobres, párias identitários. “Um povinho bunda”. (apud o saudoso humorista Bussunda (1962-2006).   

Certo é que desde o processo colonizatório e até hoje em dia, mesmo com todo esse potencial, passamos séculos mantendo sistemas políticos que acomodam a essência das oligarquias rurais, atrasadas, que impediram serem mais significativas nossas conquistas frente às sociedades modernas.

O pontapé inicial foi dado pelos povos indígenas. Conhecem? Não? Há uns poucos espalhados por aí. Corram e os encontrem antes que dizimados ou aculturados. Gente boa. Mereciam maior mérito, no entanto, para muitos brasileiros, inclusive autoridades, apenas produzem e vendem apetrechos artesanais para serem usados em desfiles no Carnaval ou enfeitam formosos corpos burgueses ou de intelectuais ativistas que se esmeram em mostrar de forma pictórica que defendem suas causas.

Nada. Sempre foram valiosos protetores do Território, cobiçado pelo desenvolvimento da navegação marítima europeia, que esperou iniciar o século 16 para aqui chegar e inaugurar o processo de colonização, até hoje observando Constituição e Código Florestal, embora assacados em suas terras por agricultores, pecuaristas, madeireiros, mineradores, quando não fiscais do governo.

Bons observadores do Velho Mundo, na época, perceberam serem eles nossos “bois de piranha” e a eles continuam dando tal protagonismo.

Passaram-se séculos, até que bons historiadores começaram a bater no processo colonizatório, e perceberam que os descobridores grelhavam na brasa deliciosas sardinhas e embebedavam-se com vinhos verdes. Eram portugueses, de boas ou más estirpes.

Tudo o que me ensinaram e li, os malfeitos dos lusitanos deveriam fazer-me odiá-los. Como nação invasora, imperialista, traficante de bens naturais, escravos negros e malcheirosos estupradores. 

Pelo contrário, e talvez por vir a conhecê-los e estudá-los tardiamente, admiro-os. Não sei bem como isso se deu. Talvez na infância, quando em calçolas, sem camisa, meias cumpridas, descalço, eu corria um quarteirão até a padaria, para buscar três pãezinhos, a pedido de minha mãe. 

Neste ano, tudo faz crer que dentro da Democracia e do Estado de Direito, o voto popular determinará quem exercerá o poder incumbente.

Dependendo de quem ganhar, estamos entre a reconstrução do que, até aqui, ainda que aos trancos e barrancos, constituiu-se numa nação, ou viveremos num descomunal caminho até um agronegócio terminal.

Se não mudar de ideia, volto ao assunto.

Inté!  

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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