Bolsonaro, PCO e os protestos pelo impeachment

A diminuta esquerda antidemocrática dá munição, razões e evidências facilmente organizadas para o fascismo de extrema-direita

Esse tipo de comportamento rende muita satisfação em pequenos e estritos círculos. Mas não só (Foto: Reprodução/Twitter)

Esse tipo de comportamento rende muita satisfação em pequenos e estritos círculos. Mas não só (Foto: Reprodução/Twitter)

Opinião

A rota do espectro político-ideológico não é linear, mas abaulada. Tomem o negacionismo científico como exemplo. Em terra de bolsonarismo, pode até parecer que essa identidade é exclusiva da extrema-direita fascista, mas não, esse comportamento não se explica pelas variáveis ideológicas. 

Você não precisa ser de esquerda, de direita ou de centro para acreditar que a pandemia é uma invenção da indústria farmacêutica e de pesquisadores inescrupulosos. Ou que governos inventaram esse vírus em laboratório para reduzir a população mundial e desafogar sistemas previdenciários.. O conspiracionismo costuma agregar pessoas sem distinguir cor, credo, classe social ou ideologia política. Perguntem a um lulista tatuado se Jair Bolsonaro recebeu uma facada ou se aquilo tudo foi uma enorme e genial encenação para fazê-lo presidente. Perguntem a um bolsonarista se Adélio Bispo não agiu a mando de algum grupo de esquerda anti-Bolsonaro. Talvez o PSOL. 

A própria hesitação vacinal em tempos de pandemia ilustra esse comportamento. Quanto mais politicamente radical e obtusa é a percepção do sujeito, maior é a preponderância à adesão conspiratória de que vacinas são artefatos voltados para o controle social. Ou um simples artifício para que corporações lucrem mais. O discurso do tratamento precoce contra a Covid-19 vem daí. Assim como o do poder de cura de alimentos, vitaminas e plantas. 

Esse fenômeno também esbarra nos protestos anti-Bolsonaro que ocorreram no último sábado. Adeptos do vandalismo justificado por uma posição anticapitalista, pessoas com  camisas do Partido da Causa Operária, o PCO, protagonizaram um ataque a militantes do PSDB, com direito a incinerar uma bandeira do partido. Também depredaram uma agência bancária. O PCO foi à manifestação depois de ter retirado sua assinatura do super-pedido de impeachment de Bolsonaro. Na véspera da manifestação, o jornal do partido publicou um texto no qual defendia a necessidade de “expulsar a direita dos atos”.

Esse tipo de comportamento, certamente, rende muita satisfação nos pequenos e estritos círculos desse tipo de fanatismo. Mas não só. Alimenta, igualmente, aquilo de que o bolsonarismo precisa para manter viva sua caricatura de movimentos sociais e da esquerda no Brasil. Demonstra, inclusive, que o bolsonarismo não inventou, propriamente, uma imagem arbitrária da esquerda, mas encontrou absurdos e os generalizou.

Escreveu Jair Bolsonaro no Twitter com imagens de vidraças quebradas e fogo na rua: 

E no jogo das disputas simbólicas da comunicação políticas nas redes digitais, o estrago foi além. Como mostrou o pesquisador Marcelo Alves em sua conta no Twitter, de sábado para domingo, as hashtags de apoio aos protestos de sábado deram lugar a menções críticas e condenatórias sob hashtags como #EsquerdaCriminosa e “terroristas”. Marcelo mostra, inclusive, como as críticas aos protestos contra Bolsonaro tiveram um ciclo de vida maior do que as manifestações de apoio ao atos contra o presidente. E como sabemos, é no território da comunicação que opiniões são formadas e atitudes são forjadas. Para os que defendem a urgência da retirada de Jair Bolsonaro da presidência, essa não foi uma boa notícia.

A esquerda antidemocrática, grande ou pequena, retroalimenta o fascismo da extrema-direita. Lhe dá munição e razões. Dá evidências facilmente organizadas em enunciados e mensagens embaladas para o consumo de um amplo público. 

O PCO anda de mãos dadas com o bolsonarismo quando o tema é flexibilização da posse e porte de armas. Ambos veem na violência bélica o caminho para chegar a seus objetivos que são, igualmente, contra a democracia e os valores liberais-progressistas. Entre os dois grupos, amigos e amigas, está a democracia, assim como está a ciência entre os extremos ideológicos do negacionismo. 

Os atos de indivíduos ligados ao PCO nos dão uma lição: a luta contra Bolsonaro é uma luta pela democracia e não por um autoritarismo violento anti-bolsonarista. Isso significa lutar contra qualquer tipo de projeto autoritário e violento. E inclui ter muito claro que coisas como o PCO são ruins, como é Jair Bolsonaro. É sobre democracia contra fascismo. Seja de que cor for. 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

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