Bolsonaro, JK às avessas

O ex-capitão subverteu o slogan de Juscelino. São '50 anos em 5 minutos' de mentiras, cloroquina e leite condensado

Foto: Alan Santos/PR

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Opinião

Juscelino Kubitscheck se esforçou para completar a modernização do Brasil iniciada por Getúlio Vargas. Com aquele porte de sommelier, o mineiro de sobrenome checo ergueu Brasília em 42 meses, pavimentou 13 mil quilômetros de estradas para consolidar a indústria automobilística, construiu outros 3 mil quilômetros de ferrovias e inaugurou duas grandes hidrelétricas, Furnas e Três Marias.

O esforço desenvolvimentista levou seus marqueteiros a criar o famoso slogan “50 anos em 5”. Foi um raro momento, no século marcado por golpes e motins, no qual os brasileiros, em pleno exercício das liberdades democráticas, aspiraram à grandeza. Éramos o país do futuro – e até o resto do planeta acreditava. Em 1956, quando JK assumiu a Presidência, as rádios tocavam os versos de Zé Ketti: “Eu sou o samba/A voz do morro sou eu mesmo sim senhor/Quero mostrar ao mundo que tenho valor”. E Dorival Caymmi anunciava a sua intenção: “Eu vou pra Maracangalha, eu vou/Eu vou de uniforme branco/Eu vou”.

Sonhos, por aqui, duram pouco. Convencer a tigrada de que não vale a pena o esforço de construir uma nação é mais fácil do que tirar chicletes da boca de militares. Não tem jeito, somos preguiçosos, ladinos, “não sabemos fazer quase nada”, como afirmou Bolsonaro. Só gastamos dinheiro em bailes funk, emendaria Paulo Guedes. Três anos depois do fim do mandato de JK, os militares atenderam aos apelos patrióticos e instalaram uma ditadura de 21 anos para “salvar a democracia”. Juscelino morreu em 1976, em um suspeito acidente de carro. Morria com ele a frente ampla contra o regime.

Quando o dia voltou a raiar, ou nos convencemos da chegada da aurora, em 1984, o Brasil, apesar de ludibriado pelo enterro das Diretas Já, depositou suas esperanças em Tancredo Neves. No fim, teve de se contentar com José Sarney. O califa do Maranhão saiu pelas portas do fundo, entrou Collor, lançado pela janela do impeachment, e se seguiram a era FHC, os anos Lula, Dilma Rousseff, o golpe e o governo interino do decorativo Michel Temer. Nossa resiliência foi corroída por incontáveis escândalos, fabricados ou não: os anões do Orçamento, PC Farias, a compra de votos da reeleição, mensalão, petrolão… E cá estamos, diriam os patrícios. Sem eira nem beira.

 

 

O governo Bolsonaro é um zero à esquerda e à direita e no centro. Seu único objetivo é empreender uma guerra cultural diuturna contra o Brasil. Cada gesto, cada palavra, cada desmentido, cada ato feito, cada ato desfeito parte do princípio de “vencer pelo cansaço”.

O ex-capitão subverteu o slogan de JK.

São 50 anos em 5 minutos de mentiras e Fake News.

50 em 5 de irresponsabilidade e descaso.

50 em 5 de ataques à ciência e ao jornalismo.

50 em 5 de produção de cloroquina (algum dia alguém cobrará do Exército o desperdício de dinheiro público na fabricação do medicamento?).

50 anos em 5 minutos de leite condensado, pizza e batata frita (tá explicada a boa forma do ministro Pazzuelo).

É uma batalha cansativa e infindável. Temo que em breve restem dois tipos de brasileiros: o gado, cego, surdo e mudo para os crimes e a incompetência do “mito”, e os zumbis, com o cérebro corroído por tanto sobressaltos. Olhos perdidos no horizonte, articulações enrijecidas, roupas em farrapos, os zumbis irão vagar pelas ruas a grunhir “Fora Bolsonaro, fora Bolsonaro, fora Bolsonaro”. Ninguém escutará.

PS: nem a possibilidade de escapar de avião, navio, bicicleta ou naquela balsa improvisada por Henri Charrieré, o Papillon, está disponível. O mundo, o “tribunal internacional”, sentenciou os brasileiros a cumprir uma pena em companhia de Bolsonaro. As fronteiras estão fechadas para nós que somos jovens ou nem tanto. O planeta quer distância. Justo.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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