Bolsonaro e sua rota de colisão com os ricos e privilegiados

Cabe perguntar: se o novo coronavírus atingisse apenas os pobres e periféricos, o alarme mundial seria tão intenso?

O presidente Jair Bolsonaro (Foto: Marcos Corrêa / PR)

O presidente Jair Bolsonaro (Foto: Marcos Corrêa / PR)

Opinião

A dupla crise da saúde pública e da economia pode vir a ser devastadora. A pandemia não está sob controle. A recessão é inevitável a esta altura, no Brasil e em grande parte da economia mundial. A questão é se será possível evitar uma grande depressão, como a que ocorreu na década de 1930.

E, no entanto, as piores desgraças têm o seu potencial positivo. Abre-se a possiblidade de nos livrarmos do pior presidente que já tivemos. Por pior que fosse o seu desempenho – e foi terrível desde o início –, Bolsonaro não corria sérios riscos até fevereiro/março deste ano. Ao contrário, estava nadando de braçada e trabalhando o tempo todo para se reeleger em 2022.

O choque monumental produzido pelo novo coronavírus e, em especial, a incompetência do presidente, escancarada na forma como vem reagindo ao desafio, provocou imediato desgaste. Cresce o número e a importância dos seus adversários, inclusive, sintomaticamente, na direita e até na extrema-direita.

Vamos falar com total sinceridade. Muitos dos atuais opositores do governo, mesmo alguns que clamam pela saída de Bolsonaro, não se mexiam até há pouco. As barbaridades contra a soberania nacional, os assalariados, a máquina pública, a educação, a cultura e a democracia eram muitas e graves, mas nada disso parecia sensibilizar grande parte da eli- te, que continuava interessada sobretudo nas chamadas “reformas estruturais”.

Agora surgiu um fato novo: a inépcia de Bolsonaro põe vidas em risco – certas vidas. Não vamos esquecer, leitor, que o novo coronavírus é uma doença de rico, no sentido de que ela atinge primeiramente os privilegiados, os viajados, os interconectados internacionalmente. Em outras palavras, é uma doença dos “globalizados” – foram eles os primeiros infectados e são eles os transmissores para o resto da população. Sem querer ser cínico demais, cabe perguntar: se o novo coronavírus atingisse apenas os pobres e periféricos, o alarme mundial seria tão intenso? Ao mostrar despreparo diante da ameaça, Bolsonaro entrou em rota de colisão com os ricos e privilegiados do País. Em consequência, nunca foi tão amplo o espectro de opositores, enfáticos ou não, declarados e não declarados.

Previsões em política são tão ou mais difíceis do que em economia. Mesmo assim, arrisco fazer algumas considerações sobre o nosso futuro político. Diminuiu consideravelmente, ao que parece, a ameaça de um golpe, que seria iniciado por Bolsonaro e seus aliados mais próximos. Haveria talvez três cenários possíveis a curto prazo.

O mais favorável a Bolsonaro, e talvez o menos provável, é que ele consiga, apesar de tudo, atravessar a crise sem pe der o apoio do seu “núcleo duro” – algo como 25% a 30% do eleitorado. Se conseguir, poderá se preparar, passada a crise, para disputar com chances a reeleição em 2022. Mas o despreparo do presidente, que sempre foi visível, o torna incapaz de encarar o desafio da crise. Uma erosão do apoio, mesmo de eleitores antes confiantes, parece inevitável.

O segundo cenário, impossível até pouco tempo, é a saída do presidente, por impeachment, interdição ou renúncia. Com as sucessivas truculências e imprudências, atitudes alopradas e irresponsáveis, criminosas mesmo, Bolsonaro isola-se e abre flancos para a sua derrubada. A sua posição não está irremediavelmente perdida, mas ele corre riscos crescentes. As forças que historicamente derrubam presidentes no Brasil, desde o século passado, parecem cada vez mais propensas a aplicar os métodos e dispositivos existentes contra o presidente atual.

Terceiro cenário: Bolsonaro continuaria, mas como “pato manco”, com pouco poder real. Seria transformado em uma espécie de Rainha da Inglaterra, que reina, mas não governa. Alguns trabalham visivelmente com esse cenário como cenário-base – e tentam implementá-lo. As iniciativas ou decisões migrariam, sempre que possível, para o Congresso, para o Judiciário, para ministros do governo que gozem de certa autonomia em relação ao presidente e para os governadores e prefeitos.

Essa solução pode parecer atraente, pois evita os traumas do impeachment, mas tem percalços evidentes. Um governo assim fragmentado e fatiado não seria eficiente em solucionar uma crise como a que estamos começando a enfrentar. A liderança precisaria partir de um Executivo razoavelmente organizado e crível, sob comando do presidente da República.

Além disso, o cenário “pato manco” pressupõe algo difícil de ocorrer com Bolsonaro, isto é, que ele viesse a aceitar, de forma relativamente pacífica, que lhe colocassem a canga. O mais provável é que ele esperneie até o fim, tumultuando e talvez inviabilizando o trabalho daqueles que tentarem promover a sua interdição branca.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor-executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países

Compartilhar postagem