Opinião

Bolsonaro é o perfeito rebento de 519 anos de velhacaria e atrocidades

Hoje somente o Nordeste, ex-fundão do Brasil, é espaço de consciência política onde a demência não pega

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Marcos Corrêa/ PR
O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Marcos Corrêa/ PR
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Demente era Dom Quixote, a extraordinária personagem de Cervantes, ao ser derrotado pelos tempos novos depois do enterro daqueles da Cavalaria. Nem sempre houve quem soubesse interpretar corretamente a triste figura. Um musical nova-iorquino de grande sucesso em todo o mundo o apresenta como herói romântico, capaz de enfrentar inimigos imbatíveis para defender honra e justiça a risco. Quem entendeu Quixote foi Franz Kafka (não, não é comestível), em um conto curtíssimo destinado a valorizar Sancho Pança ao demonstrar que o fiel escudeiro com os pés na terra tinha um demônio, que mais tarde chamou de Quixote, e com quem partiu para a diversão de aventuras fantásticas. Diga-se que moinhos a vento não cabem no papel de gigantescos inimigos prontos a cancelar valores que nobilitam a existência humana.

A demência de Jair Bolsonaro e do bolsonarismo é de outro, terrificante alcance. O mundo começa finalmente a descobrir a dimensão da gravíssima doença que acomete o presidente do Brasil e, no caso do insano ataque piromaníaco à Amazônia, a própria natureza revolta-se e a floresta, pulmão da Terra, como diz o papa Francisco, impõe sua indispensável presença. No campo de combate aos crescentes males ambientais, Bolsonaro perde a batalha da demolição do País, conduzida, aliás, em várias frentes.

 

Recomendo nesta edição a leitura do texto de Nirlando Beirão, como sempre magistral, na seção QI, o perfil implacável de quem representa com inconfundível aderência o País e uma larga fatia dos seus habitantes. Bolsonaro é o perfeito rebento não somente do golpe de 2016, mas também, e sobretudo, de 519 anos de prepotência e ferocidade sem conta, de velhacaria e atrocidades. O fenômeno é definitivamente brasileiro e quem disserta em torno da ideia de que situações similares já se deram em outros cantos do mundo, também é tipicamente brasileiro. Com sua tortuosa argumentação, busca dois efeitos: se não uma desculpa, uma justificativa, bem como um aceno à esperança defendida com paixão futebolística.

A história não deixa dúvidas. O genocídio dos aborígenes donos da terra invadida e impiedosamente explorada, no oblívio do futuro. Três séculos e meio de escravidão de verdade ainda não extinta.

Uma independência a resultar de uma briga cortesã sem que o povo de então tivesse a mais pálida noção do que ocorria. Toda uma série de golpes desfechados por um exército de ocupação desde a proclamação da República. Criamos um país que ainda não se fez nação e nele nos ajeitamos (é o jeitinho da nossa lavra exclusiva), enquanto avultam na retórica contemporânea palavras despidas de significado, como pátria e democracia, esta impossível diante de monstruosa desigualdade. Não tivemos uma guerra de independência, nem manifestações decisivas de rebeldia popular. Bolívar e San Martin não eram brasileiros, tampouco os pais fundadores dos EUA. Quando surgiu um governo disposto a praticar políticas sociais contra a pobreza, escassos anos depois quem o presidiu foi alvo do enésimo golpe, condenado e preso sem provas, para impedir sua participação nas eleições de 2018. 

Hoje somente o Nordeste, ex-fundão do Brasil, é espaço de consciência política onde a demência não pega. O que sobra é um país medieval, único na sua desgraça.

Mino Carta

Mino Carta
Diretor de Redação de CartaCapital

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