Bolsonaro diante da verdade

O imbróglio é que seu discurso incivilizado fomenta o ódio, estimula a propagação do vírus

O Presidente Jair Bolsonaro. Foto: Evaristo Sá/AFP

O Presidente Jair Bolsonaro. Foto: Evaristo Sá/AFP

Opinião

Por Adércia Bezerra Hostin dos Santos e José Isaías Venera*

“Como cidadão é uma coisa e como presidente é outra. Mas como nunca fugi da verdade, digo: não vou tomar a vacina. Se alguém acha que minha vida está em risco, o problema é meu e ponto final”, declarou o presidente Jair Bolsonaro ao apresentador José Luiz Datena, da TV Band, no último dia 15 de dezembro.

 

 

A fala do presidente Bolsonaro ressoa como um inconsciente a céu aberto, numa estrutura psíquica que dá sinais de não se articular na dúvida, impossibilitando o reconhecimento do outro. Quando não há dúvida, não há déficit entre a realidade psíquica e a realidade dos fatos. O que se passa na mente é a verdade e ponto final. Mas a pergunta que devemos fazer é: qual verdade o discurso do presidente sinaliza?

Na primeira frase (“Como cidadão é uma coisa e como presidente é outra”), o sujeito fica oculto, mesmo sendo enunciado a partir de um corpo que a palavra habita. Na segunda (“Mas como nunca fugi da verdade, digo: não vou tomar a vacina”), ele se mostra, mas sem declarar se é na posição de presidente ou de cidadão. Na terceira frase (“Se alguém acha que minha vida está em risco, o problema é meu e ponto final”), a posição permanece ambígua, indicando que não há fratura entre a linguagem e a realidade dos fatos.

Objetivamente, quem deu a entrevista foi o presidente e, é bom marcar, sem partido (posição nebulosa) e sem saber o que compete ao seu cargo. Ele entrelaça falas ordinárias numa posição de presidente cujo efeito de verdade é negar a pandemia e, consequentemente, não se implicar com as mortes por Covid-19.

Efeito de verdade pressupõe tomar a palavra como causa de alguma coisa que não se deixa ver nessa zona nebulosa da ambiguidade, mesmo que para o sujeito não haja dúvidas na realidade que se passa em sua mente. Para ser direto, a verdade não diz daquilo a que o discurso aponta, mas sim daquele que se constitui no dizer, o enunciador.

Poderíamos brincar com as palavras e dizer que o presidente é um sujeito nebuloso, que não reconhece limites, já que ele se faz ver no discurso que escapa ao rito de um presidente e se esconde na proteção que o cargo lhe confere. E a um sujeito nebuloso é de se esperar a promiscuidade entre o dizer ancorado entre fatos e factoide, sendo este último conhecido na embalagem das fake news. Nesse encadeamento, a desinformação, ou a mentira, deixa de ser um recurso linguístico de persuasão para se converter em um significante da verdade do sujeito que a enuncia.

Quando Bolsonaro diz “o problema é meu e ponto final”, este “.” é falso já que a palavra o circula, caso contrário não seria enunciada. Ela circula em proporções massificantes a partir de um veículo de comunicação de massa, a TV Band. Nem Bolsonaro é a origem de seu próprio discurso (sobram artigos que articulam suas falas com posições neofascistas), nem sua fala se encerra em si mesma, sendo que cria laços, mesmo que destrutivos.

 

A materialidade do discurso nebuloso

Os corpos mortos por Covid-19 se avolumam nos números computados diariamente. Somavam mais de 180 mil até dia 16 de novembro. Enquanto isso, o presidente vê os dados com normalidade (na gramática deste artigo, com nebulosidade). Uma completa dissociação entre o significante (os números) e seu referente (os corpos mortos). Ausência de empatia diante da dor dos outros.

Esse descolamento da palavra com a vida de carne e osso, que se repete desde o início da pandemia, abriu caminho para falas como a do Superintendente de Seguros Privados (Susep), lá nos primeiros meses, em 8 de maio, como sinalizou o título da matéria do Estadão: “Morte de idosos por Covid-19 melhora contas da Previdência, teria dito chefe da Susep”. Mesmo que o verbo “teria”, futuro do pretérito, indique incerteza a algo que poderia ter acontecido após uma situação no passado, é rapidamente interpretado como “coerente”, já que se refere a um governo entreguista que coloca o mercado acima dos cidadãos. Nem o discurso de Bolsonaro se inicia nele mesmo, como vimos, nem se encerra nele mesmo.

Lá no início, em 24 de março, Bolsonaro pronunciou em cadeia nacional: Por que fechar as escolas? O presidente não recuou de sua posição, desde então, porque não há dúvida quanto ao caminho do negacionismo, cuja suposta verdade não se ancora na realidade dos fatos. Esse tema foi abordado no artigo “A negação da pandemia e da educação: é uma histeria coletiva” , publicado no portal da Contee.

 

O problema não é do Bolsonaro

Diante de falas a céu aberto, o problema não é do presidente Bolsonaro e seu “ponto final”. O imbróglio é que seu discurso incivilizado fomenta o ódio, estimula a propagação do vírus e vem como manifestação da pulsão de morte, para usar um termo de Sigmund Freud, no sentido da destrutividade. Durante a escrita de “Além do princípio do prazer”, que completou cem anos neste 2020, Freud introduz o conceito, talvez influenciado pela morte prematura de sua filha Sophie, em janeiro de 1920, vitimada pela gripe espanhola.

Se o contexto da escrita de “Além do princípio do prazer” decorre da primeira guerra mundial (Freud articula com os traumas de guerra) e da gripe espanhola, em que se destaca a formulação, pela primeira vez, da pulsão de morte (sem fazer referência à morte de sua filha), hoje esse conceito adquire ainda mais importância no Brasil de Bolsonaro, muito bem ilustrado na capa da IstoÉ de novembro deste ano, na qual o presidente aparece fantasiado de coringa. O que não deixa de ser um fantasma que não cessa de assombrar o país.

 

*Adércia Bezerra Hostin dos Santos é pedagoga, mestranda em Sociologia e Ciências Políticas na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), presidente do Sindicato dos Professores de Itajaí e Região/SC, coordenadora da Secretaria de Assuntos Educacionais da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee) e membro da diretoria do Fórum Nacional de Educação (FNPE).

*José Isaías Venera é jornalista, doutor em Ciência da Linguagem pela Unisul e professor dos cursos de comunicação da Univille e Univali, em Santa Catarina. Site: www.joseisaiasvenera.com

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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