Bolsonaristas e liberais: duas cabeças com o mesmo corpo?

É preciso saber quem no dia D e na hora H está disposto a reverter a série de retrocessos que vêm se acumulando nos últimos cinco anos.

Paulo Guedes e Jair Bolsonaro. Foto: Mauro Pimentel/AFP

Paulo Guedes e Jair Bolsonaro. Foto: Mauro Pimentel/AFP

Opinião

“Minha preferência se inclina na direção de uma ditadura liberal, ao invés de um governo democrático que não pratique o liberalismo”, afirmou Friedrich Hayek, considerado um dos principais teóricos do capitalismo pós-fordista. Muito coerentemente, o pensador austríaco chegou a se entusiasmar com a sangrenta ditadura de Pinochet. Salvador Allende, afinal, embora houvesse sido eleito pelo povo chileno, não “praticava o liberalismo”. O golpe contra seu governo e a ditadura que se instaurou logo após demonstram como a retórica do democratismo vulgar que liberais costumam adotar contra o fascismo não passa de bravata.

A fauna que venera as posições de Hayek nos dias atuais vai além de adolescentes-de-internet. O resultado da pesquisa eleitoral encomendada recentemente pela XP Investimentos fez o baronato da Faria Lima fumaçar. O motivo: a ampliação da vantagem de Lula contra Bolsonaro. A cúpula da XP não gostou de ver o jacaré abrir a boca em favor do petista. “Bruno Constantino, CFO e um dos mais relevantes sócios da XP, estrilou internamente. Reclamou por WhatsApp e por telefone com os responsáveis pela produção do material. Chegou até a questionar a metodologia da pesquisa, que, aliás, é a mesma desde 2018”, revelou o jornalista Lauro Jardim.

Nada de novo. “Plutonomia” foi a expressão usada em três memorandos de autoria da Citigroup, uma das maiores empresas do ramo de serviços financeiros do mundo, para caracterizar certo país do norte. Em seu conteúdo, a conclusão de que falta democracia nos Estados Unidos (onde a “plutonomia”, entendida como a completa subjugação do regime político e econômico aos mais endinheirados, se alojou muito confortavelmente).

Na ocasião, a agência informou ao topo da sua pirâmide de investidores que the land of the free está, há muito tempo, longe de ser uma democracia. Garantir os privilégios do 1% da população que concentra a maior parte da riqueza coletivamente produzida é seu propósito indesviável, fagocitando todo e qualquer inconveniente democrático ou republicano que se atrever a entrar no caminho.

Para os insuspeitos dirigentes da Citigroup, a liberdade nos EUA é uma estátua.

Recentemente, banqueiros e empresários deram sinais de que pretendiam lançar um manifesto em prol da paz entre os três poderes da república. Liderado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), com a participação da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), o manifesto, com mais de 200 assinaturas, deveria ser divulgado no dia 31 de agosto. Foi adiado. Bolsonaro teria acionado os presidentes do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal para constranger seus signatários a mantê-lo na gaveta. Paulo Guedes e o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, estariam de acordo com as ameaças feitas aos bolsos do convescote recém-convertido a Montesquieu. Deu certo.

 

Um dos trunfos dos comunistas chineses durante a 2ª Guerra Mundial foi o engajamento implacável contra o imperialismo japonês que pretendia fazer com o Reino do Meio o que a Alemanha nazista desejava fazer com os “indígenas” do leste europeu. O aguerrido compromisso em enfrentar os invasores, postura diversa do corpo mole do Kuomintang, o Partido Nacionalista Chinês (mais preocupado em derrotar os comunistas que o inimigo externo), contribuiu para que o povo soubesse quem, de fato, estava disposto a libertá-lo do colonialismo que há 100 anos subjugava a China. Em 1949, não titubearam em se juntar à revolução liderada por Mao Zedong.

É tempo de não confundir o povo e mostrar quem representa um projeto disposto a bater de frente com a miséria embalada pelo programa de Paulo Guedes, dos farialimers e dos noviços da Fiesp e da Febraban. A ditadura liberal de Hayek já se consolidou com o golpe de 2016 e com a subsequente emenda constitucional do teto de gastos: ao constitucionalizar um arroxo fiscal por duas décadas, o governo Temer procurou estabelecer de antemão o programa econômico de todos os candidatos à Presidência da República até 2036, buscando excluir do debate a discussão sobre política econômica e afins. Enquanto isso, o SUS perde recursos meio a uma pandemia que ceifou mais de meio milhão de vidas enquanto 116 milhões de brasileiros são obrigados a pular uma refeição por dia. Outros 19 milhões, nem isso.

Não se deve alimentar dúvidas quanto à necessidade de polarizar e radicalizar contra Bolsonaro e os liberais cheirosos que, repetindo 2018, não hesitarão em pongar no bonde do neofascismo diante da iminência de uma vitória de Lula. Para isso, a população precisa saber quem é quem na fila do pão; quem, no dia D e na hora H, está disposto a reverter a série de retrocessos que vêm se acumulando nos últimos cinco anos.

Na rapina neoliberal, a direita que usa garfo e faca se alimenta do mesmo banquete que os brucutus que comem com as mãos. A intenção é a mesma. Se aproximar dos primeiros não ajuda a derrotar os segundos. E muito menos o projeto que têm em comum.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Advogado, mestre em direito constitucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte

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