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Bolsonarismo 2.0

Associados ao trumpismo e com grande capacidade de mobilização, os discípulos de Bolsonaro dissimulam o autoritarismo de outrora com singulares artifícios

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Bolsonarismo 2.0
O senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ). Foto: Vitor Souza/AFP
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Eleições 2026

A história humana não ocorre através de fases estanques, como às vezes a descrição didática em períodos transparece ao inadvertido. Ao contrário, ela se revela por meio de processos complexos, nos quais elementos de conformação política e social do período anterior podem ser – e comumente são – identificados nos subsequentes. Não há, inclusive, garantias contra retrocessos e involuções civilizatórias. Só há ordem na mera descrição histórica, bem como nas tentativas de sua compreensão pelos manuais da didática clássica. Na história vivida prevalece o caos.

É nesse cenário que podemos afirmar enfaticamente: o bolsonarismo está aparelhado para, de forma sedenta, reassumir o poder pelas vias democráticas, mas com o deliberado propósito de miná-las no curso do processo eleitoral, abrindo caminho para uma governabilidade de exceção.

As formas de autoritarismo do século XXI possuem, como constantemente reafirmamos, determinadas especificidades quando comparadas às manifestações do século anterior. Ainda que identifiquemos elementos de continuidade, as expressões dos últimos anos, por estarem diluídas na rotina democrática, tornam o tema ainda mais desafiador.

O autoritarismo deixou de ser a manifestação de um Estado de exceção em sua acepção clássica, para dar lugar às medidas de exceção associadas à produção fractal e líquida. Ou seja, deparamo-nos com um Estado de exceção que se manifesta por medidas de exceção, não por governos de exceção.

Utilizamos a denominação autoritarismo líquido para falar dessa nova natureza das medidas de exceção no interior das rotinas democráticas, por se tratar de medidas fragmentadas, cirúrgicas, acionadas sob uma aparência de legalidade, o que torna sua identificação mais difícil.

A análise do autoritarismo líquido – assim intitulado por não se assumir como tal, não ser uniforme e minar, em intensidades variadas, os âmbitos da vida democrática – impõe aprofundado estudo dos fatores de desestabilização e de subversão dos direitos fundamentais e da democracia.

O enfrentamento à gradual fragilização dos espaços e dos sentidos da democracia e da relação de pertencimento à sociedade requer que desnudemos os artifícios das novas formas de autoritarismo, inclusive de matriz neobolsonarista, enfraquecedoras do nosso pacto civilizatório.

O olhar para o futuro pressupõe, antes de mais nada, o reconhecimento dos nossos recentes fracassos, a insuficiência dos nossos manuais clássicos e a falibilidade das nossas instituições. Entretanto, sem que antes tenhamos enfrentado e desnudado o bolsonarismo, o mesmo vem se apresentando, praticamente às vésperas de um novo processo eleitoral, de forma cada vez mais sofisticada e poderosa.

Maior sofisticação, quando comparado ao que podemos chamar de bolsonarismo 1.0, é identificada, por exemplo, nos seus discípulos, inclusive nos governos estaduais. Com maior verniz, eles dissimulam o autoritarismo de outrora com singulares artifícios. Ademais, maior poderio identifica-se, ainda, na capacidade de mobilização e associação ao trumpismo.

É fundamental compreender as causas e as consequências do deslocamento do poder soberano do povo para aquele que toma para si a possibilidade de, inclusive mobilizando afetos públicos e em solapamento da verdade e da coesão social, decidir sobre a exceção. Trata-se do antídoto contra a gradual fragilização dos direitos fundamentais, dos espaços e dos sentidos da democracia e, por fim, da relação de pertencimento à sociedade.

Repita-se: o enfrentamento à gradual­ fragilização dos espaços e dos sentidos da democracia e da relação de pertencimento à sociedade requer que desnudemos os artifícios de um autoritarismo de diluição do pacto civilizatório e da coesão social. Medo, ódio, ressentimento, decepção, raiva e angústia são, como nunca, capturados pelo soberano por meio de narrativas pretensamente racionais e legitimadoras da imposição de mecanismos de segregação e violência, em prejuízo da pluralidade e da tolerância.

Ainda que desejássemos, não temos fórmulas ou receitas para o enfrentamento do desafio ora apresentado. Uma das características do novo autoritarismo está exatamente em retroalimentar-se e de redesenhar-se diuturnamente, inclusive como estratégia de infiltração e de esvaziamento dos instrumentos democrático-sociais a ele contrários.

A reconstrução, bem como o olhar para o futuro, requer incondicional compromisso com a democracia e com os direitos fundamentais. O grande problema é que, sem que antes tenhamos cicatrizado as dores do bolsonarismo paterno, seus filhos e adeptos estão, como nunca, armados para a guerra. Estejamos em vigília. •

Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Bolsonarismo 2.0’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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